EDITORIAL Nº1 – Onde o mundo do trabalho é analisado a partir da vida, da saúde e da dignidade de quem trabalha

O mundo do trabalho atravessa, em nosso tempo, transformações profundas, aceleradas e marcadas por desigualdades persistentes. Novas tecnologias, reconfigurações produtivas, financeirização, plataformas digitais e mudanças nas formas de gestão e controle do trabalho convivem com velhas e renovadas expressões de exploração, adoecimento, precarização e exclusão. Diante desse cenário, torna-se cada vez mais urgente recolocar perguntas fundamentais: para que, para quem e a que custo se trabalha? Que formas de vida são produzidas — e quais são sacrificadas — nos modos contemporâneos de trabalhar?

O Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora (IEA/USP) nasce e se afirma a partir de uma escolha ética, política e epistemológica clara: analisar o mundo do trabalho a partir da vida concreta, da saúde e da dignidade de quem trabalha. Não partimos do trabalho como mera abstração econômica, nem da produtividade como valor em si. Partimos das pessoas — de seus corpos, de seus tempos, de seus sofrimentos e esperanças, de suas experiências e de suas lutas cotidianas por reconhecimento, proteção, direitos e sentido.

Essa perspectiva orienta nossa visão de ser referência acadêmica e social, no Brasil e no plano internacional, na análise crítica e prospectiva das transformações do mundo do trabalho. Uma referência comprometida não apenas com a produção rigorosa de conhecimento, mas também com sua circulação pública, sua apropriação social e sua capacidade de dialogar com as lutas da classe trabalhadora. Um conhecimento que não se fecha em si mesmo, mas que se coloca a serviço da leitura crítica da realidade e da imaginação de futuros possíveis.

Ao afirmar a centralidade da vida, o Observatório recusa a naturalização do adoecimento, da violência, da insegurança e da descartabilidade que marcam amplos setores do trabalho contemporâneo. Ao afirmar a saúde, reconhece o trabalho como determinante fundamental das condições de viver, adoecer e morrer, e reivindica políticas, práticas e formas de organização social que protejam e promovam a vida. Ao afirmar a dignidade, reafirma que nenhum modelo de desenvolvimento, nenhuma inovação tecnológica e nenhuma racionalidade econômica podem justificar a negação de direitos, a destruição de corpos ou a corrosão dos vínculos sociais.

Mais do que um espaço de análise, o Observatório se propõe como um espaço público: de escuta qualificada, de diálogo entre saberes acadêmicos e saberes do trabalho, de encontro entre pesquisadores, trabalhadores, sindicatos, movimentos sociais e instituições comprometidas com a justiça social. Um lugar onde a crítica não se separa do compromisso e onde a reflexão se orienta pela possibilidade concreta de transformação.

Ao olhar para o presente, não ignoramos as adversidades. Mas também não renunciamos à esperança. Inspirados pela convicção de que o futuro não está dado, mas em disputa, afirmamos o direito à vida plena para além da centralidade exclusiva do trabalho subordinado. Um futuro em que produzir e reproduzir a vida não signifique adoecer, silenciar ou excluir, mas criar condições socialmente justas, saudáveis e sustentáveis de existência.

É nesse horizonte que o Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora (IEA/USP) se dirige, de modo especial, a trabalhadores e trabalhadoras, às suas organizações sindicais e aos movimentos sociais e populares. Reconhecemos esses sujeitos não como meros destinatários, mas como protagonistas da produção de conhecimento, da formulação de críticas e da construção de alternativas no mundo do trabalho.

Neste site – ainda não plenamente desenvolvido – o leitor encontrará análises críticas, pesquisas, debates públicos, produções acadêmicas, registros de escuta social e iniciativas de diálogo construídas a partir das experiências concretas do trabalho e das lutas por saúde, direitos, proteção social e dignidade. Trata-se de um convite à leitura atenta, ao pensamento crítico e à participação ativa na construção coletiva de conhecimentos e práticas que fortaleçam a organização social, ampliem a incidência democrática e afirmem, no presente, a possibilidade de outros mundos do trabalho — necessários e possíveis.

Prof. René Mendes

Coordenador Geral do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora

Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP)