Quando: 23/06/2026 (3ªf)
Horário: 14:00 – 16:30
Local: Instituto de Estudos Avançados (IEA/USP), Sala Alfredo Bosi
Rua da Praça do Relógio, 109, térreo, Cidade Universitária, São Paulo, SP
Abertura e Moderação:
René Mendes (Coordenador do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora do IEA)
Evento Presencial com Transmissão pelo canal do YouTube do IEA
RELEASE: As profundas transformações em curso no mundo do trabalho desafiam instituições, governos, organizações sindicais, movimentos sociais e pesquisadores a compreender não apenas aquilo que já está consolidado, mas sobretudo os fenômenos emergentes que anunciam mudanças estruturais ainda em formação.
Foi precisamente com este olhar prospectivo que a 114ª Conferência Internacional do Trabalho da Organização Internacional do Trabalho (OIT), realizada em Genebra em junho de 2026, concentrou seus debates em temas que podem ser compreendidos como verdadeiros “fatos portadores de futuro”, conceito desenvolvido pelo economista e futurista francês Michel Godet para designar acontecimentos, tendências ou processos emergentes que, embora ainda em desenvolvimento, possuem potencial para influenciar significativamente os cenários futuros.
Ao analisar os principais debates ocorridos na Conferência, torna-se evidente que a agenda internacional do trabalho está se deslocando para questões que desafiam profundamente os modelos tradicionais de regulação, proteção social e organização da vida laboral. Entre elas, destacam-se três grandes eixos: o trabalho decente na economia de plataformas digitais, a construção de uma agenda transformadora para a igualdade de gênero e o fortalecimento do diálogo social diante das rápidas mudanças tecnológicas e produtivas.
O primeiro desses temas talvez represente um dos mais importantes debates contemporâneos sobre o futuro do trabalho. Pela primeira vez, a OIT avançou na discussão de um instrumento normativo internacional voltado especificamente para o trabalho em plataformas digitais. Questões como transparência algorítmica, gestão automatizada do trabalho, proteção previdenciária, saúde e segurança, negociação coletiva, remuneração justa e combate à discriminação algorítmica passaram a ocupar posição central na agenda global.
Mais do que uma discussão regulatória, trata-se do reconhecimento de que novas formas de subordinação e exploração estão sendo produzidas em ambientes mediados por plataformas e algoritmos. Em muitos casos, trabalhadores formalmente classificados como autônomos encontram-se submetidos a sistemas sofisticados de controle, avaliação e gestão digital. Este fenômeno dialoga diretamente com pesquisas e reflexões que vêm sendo desenvolvidas pelo Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora (IEA/USP) sobre uberização, plataformização, inteligência artificial, precarização do trabalho e invisibilização do adoecimento.
Outro tema de enorme relevância discutido na Conferência foi a chamada Agenda Transformadora para a Igualdade de Gênero no Mundo do Trabalho. A escolha da expressão “transformadora” não é casual. Ela indica uma mudança importante de perspectiva: não basta ampliar a participação das mulheres no mercado de trabalho; é necessário enfrentar as estruturas que produzem e reproduzem desigualdades.
Nesse contexto, ganharam destaque questões como a persistência das desigualdades salariais, a divisão sexual do trabalho, a valorização do trabalho de cuidado, a violência e o assédio no trabalho, a participação das mulheres nos espaços de poder e os impactos diferenciados da transformação digital sobre mulheres trabalhadoras.
Tais debates convergem diretamente com as reflexões recentemente promovidas pelo Observatório em torno das relações entre gênero, trabalho e transformações contemporâneas, especialmente no que se refere à economia do cuidado, à saúde mental, à violência de gênero, às interseccionalidades e aos impactos da precarização sobre diferentes grupos sociais.
O terceiro eixo discutido pela Conferência diz respeito ao futuro do diálogo social. Em um cenário marcado pela fragmentação produtiva, pela dispersão dos coletivos de trabalho e pela crescente mediação tecnológica das relações laborais, emergem novas perguntas: como garantir a representação dos trabalhadores? Como fortalecer a negociação coletiva? Como preservar espaços democráticos de regulação social do trabalho?
Essas questões são particularmente relevantes em um contexto de enfraquecimento de formas tradicionais de organização coletiva e de expansão de modalidades de trabalho marcadas pela individualização, pela informalidade e pela dispersão territorial.
Para o Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora (IEA/USP), os debates realizados na Conferência Internacional do Trabalho revelam uma importante convergência entre a agenda internacional e os temas que vêm orientando suas atividades de pesquisa, reflexão crítica e incidência pública.
Mais do que tendências conjunturais, os temas discutidos em Genebra expressam transformações profundas que poderão redefinir as formas de trabalhar, produzir, cuidar, adoecer, organizar-se coletivamente e lutar por direitos nas próximas décadas.
Identificar, compreender e debater esses fenômenos é, precisamente, o propósito deste Seminário. Ao tomar os debates da OIT como ponto de partida, e tendo os palestrantes participado ativamente dos debates da 114ª Conferência Internacional do Trabalho (OIT), realizada em Genebra, de 1 a 12 de junho, o encontro pretende refletir sobre quais são os principais fatos portadores de futuro que já se manifestam no presente e quais desafios eles colocam para a construção de um mundo do trabalho socialmente justo, democrático, saudável e comprometido com a vida, a saúde e a dignidade da classe trabalhadora

