Feito rocha – Por Angelo Cavalcante (Poema especial pelo Dia das Mães)

Firme feito rocha
Posta e encravada
No sopé da montanha
Sustentando
Amparado
Sendo
Erguendo
Eivando
Elevando
Feito rocha
Um salve às mães!

Mãe
Mães
Para todas as mães
Às mães que são pais
Que são mais
Bem mais
Que são solo
Chão
Que é pão
Pães
Mães

Um feliz dia
Para todas as mães
Mães de aqui
Ali
Acolá
Mãe xavante, tupi, bororó
Mãe do nhame
Mãe yanomami
Mãe preta
Mãe do quilombo
Das serras
Das gerais
Do sertão

Mãe japonesa
Mãe russa
Mãe ucraniana
Mãe Ana
Iraniana
De fuzil empunhado
Pela escola infantil
Tão só
Que virou pó
Poeira
Sem eira
Sem beira
Com 180 crianças-bebês

Mãe Maria
Maria de Nazaré
Da Síria
Mariana
Paula
Laura
Maura
Moura
Benedita
Bendita
Aquela que mora
Que des-mora
Que demora
A outra que não mora
Que vive
Que habita
Sob a ponte
No desmonte
Do morro
Do monte
Da favela
Da bala perdida
Que abriu o muro
Um furo na cabeça
Do seu bebê

Mães brasileiras
De uma ponta a outra
Dos campos ao litoral
Das serras
Escarpas
Mães sem-fim
Dali
Do Oiapoque ao Chuí
São mães
Muitas
Milhares e milhões
Mães ricas
Sem tostões
Mães plenas
Incompletas
Desfeitas
Parte por parte
Sem arte
Só um traste
Lançadas para Marte
Pelo amor não cumprido
Ferido
Descumprido
Ido ao largo, ao longe
Homicídio
Feminicídio
Desse Brasil adoecido

Um brinde heroico
Às mães de Gaza
Da Cisjordânia
Mães

Mãe que enfrenta
Que aguenta
O fogo
O lodo
O nojo
No bojo de tanta destruição
Que resiste
Sob a pedra
A ruína
E que sorri
Sem alarido
A ausência do marido
Sem suicídio
Que enfrenta o genocídio
Que escorre
Que despenca em tiros
Em bombas
Que caem do céu
Do inferno
De Israel

Um viva às mães
Esses seres intraduzíveis
Meio gente
Meio céu
Infinito
Força
Semente
Somente
Ser da gente

Vá saber
Desse ser!

Viva!
Vivas!

Para a minha mãe!
Para a sua mãe!

Saudemos esse tempo
Tempo de delicadezas perdidas, arrasadas, destroçadas.

Lembremos do colo quente, abençoado e benfazejo de nossas mães.

VIVA!
Se ainda puder…
VIVA!

 

Angelo Cavalcante – Economista, cientista político e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara Analista do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora (Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo – IEA/USP).

Observação: as matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores e autoras, e não necessariamente representam posicionamentos institucionais do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora e/ou do Instituto de Estudos Avançados da USP.