‘Nasci moleque saci
Daí que eu nunca me entreguei’.
PretoBrás, Itamar Assunção.
‘Você ri da minha roupa
Você ri do meu cabelo
Você ri da minha pele
Você ri do meu sorriso’.
Sarará criolo, Sandra de Sá.
O “13 de maio”, “Dia de Luta pela Abolição da Escravidão” , por pouco, por bem pouco, não passa integral e completamente desapercebido, sobretudo, por esse Goiás preto, caboclo, mestiço, cafuzo e mameluco.
Por pouco…
Uma data, apenas uma, mais uma… Por que, ora bolas, pensar, refletir sobre seu sentido, sua lógica, sua pedagogia? Por que parar nossos trabalhos, demandas e afazeres para lembrarmos de “coisa de “preto”!?
Ora… O que tudo isso sugere? Que querem? O que querem os negros desse país?
Bom… Certo é que lembrar é um exercício supremo, sofisticado e muito elaborado da memória e memória, por conseguinte, é campo de disputa!
A memória, sua ativação, sua atualização e realização criteriosa, observante e cuidadosa é condição pois para qualquer processo político sério, profundo e efetivamente transformador, aliás, na política e na vida social, nada é mais importante do que lembrar .
Lembranças definem você, seus comportamentos, sua ética, sua estética e a maneira como se relaciona consigo mesmo, com tudo o que te circunda e com o mundo.
Lembrar, lembrar muito, lembrar bem… É tudo!
Nesse sentido, esta é uma das maiores nações negras do mundo, descuidar, olvidar e menosprezar uma data tão importante, central e determinante como o “13 de maio” nem é esquecer… É outrossim, ação política planejada, concebida e tragicamente realizada.
Lembramos porque, reparem bem, de acordo com o 1º Informe Epidemiológico sobre a Situação de Saúde da Juventude Brasileira (FIOCRUZ/2025): “Entre 2022 e 2023, foram registradas 128.826 mortes de jovens de 15 a 29 anos. Desse total, 65% (84.034) ocorreram por causas externas, isto é, não relacionadas a doenças ou processos naturais do organismo, mas sim a fatores como violências, acidentes e confrontos armados. Dentro desse grupo, 73% das vítimas eram jovens negros.”.
Tem mais…
Lembramos porque, de acordo com o Atlas da Violência (2025): “Ser uma pessoa negra no Brasil faz você enfrentar um risco 2,7 vezes maior de ser vítima de homicídio do que uma pessoa não negra”.
Não para… Lembrar é ato político, objetivo e sem sombra de dúvidas, a mais intensa e profunda ação de afirmação ou ação afirmativa acerca da imensa tragédia e que é a questão racial no Brasil.
Lembramos porque, em consonância com profundo e pormenorizado levantamento realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública : “Cerca de 62,6% das vítimas de feminicídio no Brasil, entre 2021 e 2024, eram mulheres negras (grifo nosso), segundo a pesquisa “Retrato dos Feminicídios no Brasil”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Conforme o documento, 36,8% das vítimas eram mulheres brancas, enquanto indígenas e amarelas representam 0,3% dos registros.
O “13 de Maio” é caminho, chave e porta para nós, os brasileiros, nos encontrarmos, quem sabe e talvez, com a gente mesmo, com nossos medos, nossas fobias, nossos ódios e ressentimentos profundos e ancestrais. É momento especial e desafiador para lançarmos na vala e nos esgotos do tempo e da memória, todo nosso ódio, nossa cólera, nossa bile escondida, nossas mágoas insuperáveis e nosso despeito ancestral e que nos impede de nos assentarmos na mesa da vida com nossos irmãos e irmãs.
Lembramos, lembramos e teimosamente lembramos porque, vejam bem, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE/2024): “Negros e pardos são maioria no mercado de trabalho, mas rendimentos de brancos são 61,4% maiores”.
Lembramos porque o desafio de uma nação justa, igualitária e livre passa e perpassa objetivamente pela ainda não resolvida questão dos negros e negras do Brasil.
Lembrar… Isso muda o mundo!
Angelo Cavalcante – Economista, cientista político e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara Analista do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora (Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo – IEA/USP).
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