ARTIGO DE OPINIÃO (31): Às vésperas da Copa, o Brasil enfrenta uma nova epidemia silenciosa: o avanço das “bets” entre trabalhadores no país. – Por Maurem Montes da Silveira

Copa do Mundo, um evento que une gerações, famílias, nações, todos se mobilizam emocionalmente, socialmente e financeiramente. Sabemos que é um tempo de múltiplos encontros e confraternizações… mas apesar do grande barulho que um mundial faz… um novo fenômeno cresce silenciosamente, junto com a paixão pelo futebol: o avanço das apostas esportivas online, as chamadas “bets”.

Mas afinal, o que são “Bets”? A definição mais popularmente encontrada, é que são plataformas ou sites de apostas virtuais (o termo deriva do inglês to bet, que significa apostar). Elas permitem que os usuários arrisquem dinheiro em palpites de eventos esportivos ou em jogos de azar digitais (cassinos on-line), com a possibilidade de multiplicar o valor investido caso o palpite se concretize, ou perder tudo caso contrário[1].

Nos últimos anos, as bets deixaram de ser apenas plataformas de entretenimento para se tornarem parte do cotidiano da população brasileira. Hoje, elas ocupam transmissões esportivas, redes sociais, estádios, camisetas de clubes, propagandas digitais e conteúdos produzidos por influenciadores. O jogo passou a estar literalmente na palma da mão.

O problema maior que é essa “palma das mãos”, segundo DataSenado, são pessoas socialmente vulneráveis, com ganhos de até 2 salários-mínimos, muitas vezes sem acesso a boas condições de moradia, saúde, transporte, educação e principalmente lazer. Um outro agravante foi a identificação de jogadores, este dado apontou que uma parte significante, é cadastrada de programas de benefícios sociais do governo federal[2].

Esse “conjunto da obra”, faz com que milhares de brasileiros apostadores, conjuguem o verbo “esperançar”, que dura literalmente segundos… o sonho de um dinheiro rápido, que o permita sonhar com a perspectiva de uma vida digna e decente.

Pesquisa realizada com base dados do Banco Central, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e métricas de interesse capturadas nas redes sociais, demonstrou após a aplicação de cálculos e modelos econométricos, que o coeficiente associado às apostas (0,2255) superou com ampla margem o peso do crédito sobre a renda (0,0440) e dos juros ao consumidor (0,0709) no cenário da inadimplência. Em outras palavras, o estudo demonstra uma grande probabilidade de endividamento das famílias[3]. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) informou que 80,4% das famílias brasileiras estão endividadas e aponta as “bets”, como um dos fatores que agravam esse cenário[4]. Uma outra pesquisa realizada pelo Procon SP, demonstrou que cerca de 40% dos apostadores, relataram endividamento em função dos jogos[5].

Embora o Brasil tenha regulamentado as apostas esportivas por meio da Lei nº 14.790/2023, a regulamentação econômica não elimina os impactos sociais do fenômeno. Ainda existem desafios importantes relacionados à prevenção do jogo compulsivo, à proteção de populações vulneráveis e à educação financeira da população.

Poderíamos simplesmente culpar essas plataformas, e vale registrar que as mais utilizadas, são de origem estrangeira. Mas o fato é que existe uma responsabilidade compartilhada, dado que o cenário de vulnerabilidade social do Brasil tornou o país um campo propicio para um vantajoso modelo de negócio.

No Brasil, especialistas estimam um aumento entre R$ 20 bilhões e R$ 25 bilhões apenas nos valores depositados para apostas durante o Mundial de Futebol.

Outro dado relevante é que pesquisas de mercado indicam que 37% dos brasileiros pretendem fazer apostas durante o Mundial, incluindo muitas pessoas que normalmente não apostam[6]. (6)

Além de todos os pontos apresentados, ainda há um de grande preocupação, no que se refere à saúde pública, saúde mental e inclusive à saúde do trabalhador.

Trabalhadores endividados tendem a apresentar níveis mais elevados de ansiedade, estresse, dificuldades de concentração e queda de produtividade. Em situações mais graves, podem surgir conflitos familiares, isolamento social, depressão e dependência comportamental. Assim como o alcoolismo e outros transtornos relacionados ao comportamento, o jogo compulsivo também pode comprometer a capacidade laboral e a qualidade de vida.

O problema é silencioso. Diferentemente de outras formas de adoecimento mais visíveis, o sofrimento relacionado às apostas frequentemente acontece de maneira privada. O trabalhador aposta sozinho pelo celular, muitas vezes durante a madrugada, em intervalos do trabalho ou em momentos de angústia emocional. As perdas financeiras acumulam culpa, vergonha e desespero, criando um ciclo difícil de interromper.

Em muitos casos, a pessoa não perde apenas dinheiro. Perde estabilidade financeira, relações familiares, confiança social e autoestima. O endividamento progressivo pode provocar sensação de fracasso pessoal, especialmente entre trabalhadores que já vivem sob intensa pressão econômica e emocional.

Sob a perspectiva da saúde do trabalhador, trata-se de um tema urgente. Empresas começam a perceber aumento de dificuldades financeiras, sofrimento emocional, distração, ansiedade e queda de produtividade entre colaboradores envolvidos com apostas. Entretanto, o sofrimento psíquico relacionado ao jogo ainda permanece pouco discutido nas organizações e frequentemente invisível dentro das estratégias de promoção da saúde.

Segundo o Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, feito pelo Ministério da Saúde, entre 2018 e maio de 2025, houve um aumento de 104% no número de atendimentos feitos no SUS para os CID-10 que se referem a ‘jogo patológico’ e ‘mania de jogo e aposta’, incluindo a Atenção Básica e os CAPS.

Às vésperas da Copa do Mundo, o país, talvez, não esteja diante apenas de um crescimento do mercado de apostas, mas da consolidação de um novo desafio social e de saúde pública. A combinação entre emoção esportiva, publicidade massiva, vulnerabilidade econômica e acesso ilimitado às plataformas cria um cenário preocupante para trabalhadores, famílias e organizações. Talvez seja justamente nesse momento que o país precise olhar com mais responsabilidade para os impactos invisíveis que acompanham a expansão das apostas online.

Porque, infelizmente, em alguns casos, aquilo que começa como diversão pode terminar em sofrimento profundo, isolamento e perda da própria esperança de viver

Em um cenário de desigualdade e insegurança econômica, discutir os impactos das apostas online deixou de ser uma questão moral e passou a ser uma necessidade social, de saúde pública e de proteção à dignidade humana.

Maurem Montes da Silveira – Membra Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora do Instituto Estudos Avançados da USP. Mestranda Faculdade Ciências Médicas Unicamp – Epidemiologia Saúde do Trabalhador.

Observação: as matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores e autoras, e não necessariamente representam posicionamentos institucionais do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora e/ou do Instituto de Estudos Avançados da USP.

[1] Biblioteca digital brasileira de teses e dissertações

[2] https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2024/10/01/mais-de-22-milhoes-de-pessoas-apostaram-nas-bets-no-ultimo-mes-revela-datasenado?utm_source=chatgpt.com

[3] https://investalk.bb.com.br/noticias/economia/bets-ja-sao-as-maiores-vilas-do-endividamento-no-brasil-mostra-estudo?utm_source=chatgpt.com

[4] https://www.procon.sp.gov.br/wp-content/uploads/2026/02/Relatorio-Pesq-Comp-Jogos-e-Apostas-2026.pdf

[5] https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-04/para-cnc-bets-agravam-endividamento-das-familias-brasileiras?utm_source=chatgpt.com

[6] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/06/bets-duplicam-faturamento-no-pais-e-ja-recolhem-impostos-igual-a-tabaco-e-agricultura.shtml?utm_source=chatgpt.com