O dia 8 de março já era considerado emblemático para as mulheres, desde meados do século XX, mas foi apenas em 1975 que a ONU oficializou a data. Adotada por 100 países, a efeméride inseriu-se em uma ação global de combate às desigualdades e à discriminação de gênero. No entanto, em um mundo composto por 195 nações reconhecidas — considerando os 193 Estados-membros da ONU e os dois observadores, Santa Sé e Palestina —, o alcance da data é revelador: pouco mais de 50% (51,28%) das nações oficializaram o dia, enquanto quase metade do globo (48,72%) ainda ignora a data formalmente.
O fato de o 8 de março não ser unânime revela que o corpo e o trabalho da mulher permanecem como campos de batalha em uma guerra cultural e econômica global. Onde a data é negligenciada, o potencial revolucionário do “esperançar” feminino é frequentemente visto como uma ameaça à ordem estabelecida. Todavia, mesmo nos países que aderiram à data, subsistem disputas de narrativas, marcadas pela ocultação dos aspectos radicais da luta e pela apropriação mercadológica a fim de promover o consumo.
Tais disputas manifestam-se, inclusive, na escolha do marco inicial da datação. Há um processo histórico de silenciamento sobre o emblemático 8 de março de 1917 em Petrogrado (atual São Petersburgo). A simbologia desse dia não emergiu de um evento isolado, mas de um processo revolucionário operário. Na Rússia czarista, o calendário vigente era o juliano, e o dia correspondia a 23 de fevereiro; no calendário gregoriano, ocidental, tratava-se do dia 8 de março. Naquela ocasião, as tecelãs e costureiras deflagraram uma greve contra a fome, a carestia e a participação russa na Primeira Guerra Mundial, sob o vigoroso slogan “Pão e Paz”.
Anos antes, em 1910, Clara Zetkin já havia proposto na II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas a criação de uma jornada anual de mobilização. Não era uma data abstrata: tinha a intenção estratégica de reivindicar o voto e a redução da jornada de trabalho de 16 para 10 horas, defendendo que a libertação feminina era indissociável da transformação do sistema econômico.
É comum encontrar versões que atribuem a origem da data a um incêndio em 1857, em Nova Iorque. Historiadores apontam que essa narrativa foi “suavizada” durante a Guerra Fria para apagar as raízes socialistas do movimento. O incêndio real e documentado ocorreu em 25 de março de 1911, na fábrica Triangle Shirtwaist, vitimando 146 trabalhadores — dos quais 123 eram mulheres, em sua maioria imigrantes judias e italianas. Se esse evento expôs a crueldade do capital sobre o corpo feminino e a urgência da dignidade no trabalho, foi o movimento em Petrogrado que serviu de estopim para a Revolução Russa.
Esgotada pela guerra, com inflação galopante e pão racionado, a Rússia via suas mulheres enfrentarem filas sob temperaturas de -20°C. Ignorando as recomendações cautelosas dos partidos revolucionários — inclusive dos bolcheviques, que temiam uma repressão para a qual não estavam prontos —, as operárias de Vyborg abandonaram as fábricas e marcharam. Elas cruzaram suas fileiras com as metalúrgicas, convocando os homens à luta. O momento crucial ocorreu no confronto com os soldados: em vez de recuarem, as mulheres aproximaram-se e pediram que não atirassem. A hesitação das tropas permitiu que o protesto se tornasse uma revolta generalizada de 200 mil trabalhadores, culminando na abdicação do Czar Nicolau II, em menos de uma semana.
Portanto, para além das disputas de memória e narrativas, a data surge como uma insurreição pela subsistência. Desde a sua origem, o 8 de março é um marco de luta, e não uma festividade condescendente.
Em 8 de março de 2026, ao completarmos 109 anos desde que as operárias de Petrogrado converteram indignação em ato revolucionário, o cenário global nos devolve a uma encruzilhada árida. No Brasil, o quadro é agravado por índices alarmantes de violência de gênero e feminicídios. Sem anacronismos, o momento impõe uma questão vital: diante do caos climático gerado por modelos hegemônicos e da “Terceira Guerra” movida pela ganância patriarcal e fanatismos religiosos, seria necessária uma nova insurreição de sobrevivência liderada pelas mulheres?
Sob uma perspectiva pessimista, poderíamos dizer que nossas conquistas foram capturadas. Lutamos pelo emprego, mas ele nos adoece sob a exploração; lutamos pelo voto, mas a democracia representativa muitas vezes serve de palco para retrocessos de extrema-direita que dominam a classe trabalhadora com o aval popular. Em 109 anos, parecemos ter inserido mais mulheres em um sistema que ainda funciona para o patriarcado. Por outro lado, há avanços: nossas vidas não guardam a mesma servidão das de nossas avós; cada geração colheu vitórias dentro das frestas do sistema.
Contudo, as contradições sistêmicas nos devolvem à pergunta original: o que garante pão e paz em tempos de colapso climático e guerras? A experiência histórica ensina que não basta ocupar espaços no sistema opressor; é preciso radicalidade — ir à raiz. Se o 8 de março nasceu do enfrentamento à guerra e à fome por meio da organização, hoje necessitamos de um marco conceitual e de uma práxis contra-hegemônica. Precisamos de utopias — ou seja, de verdades prematuras — que coloquem a humanização no centro de nossa busca pela convivência.
Neste momento caótico, de exacerbação bélica do patriarcado e destruição massiva de várias formas de vida, cabe-nos gerar algo para além. Esse aspecto vital de coexistência existe, precisa de homens e mulheres feministas para se expandir, e atende, no Brasil, pelo nome de Economia Solidária. A despeito das necessidades de aprimoramento, comuns a quaisquer modelos societários, o fundamental é que a Economia Solidária possui características antissistêmicas, indo além do que nos impõem como modo único de existência. Ela urge como vital, sobretudo diante da exacerbação da mudança do clima — realidade não experienciada por nossas antepassadas.
Hoje convivemos explicitamente com o risco de extinção de nossa espécie, seja por colapsos ambientais ou por armas de extermínio em massa. De fato, o caos climático não é neutro: dados da ONU indicam que mulheres e crianças têm 14 vezes mais chances de morrer em desastres ambientais devido a barreiras socioeconômicas. Enquanto o patriarcado analisa a barbárie de forma fria e sob uma racionalidade instrumental, a realidade conclama uma racionalidade afetiva, subjetiva, solidária. A realidade demanda, na diversidade que compõe os gêneros, o feminismo.
Necessitamos da luta pela manutenção do cotidiano gerado pelo trabalho — algo impossível dentro de uma organização baseada na dicotomia emprego/desemprego. Necessitamos de moradias seguras, alimentos, tempo livre, descanso, saúde e uma dialogia que transborde em boa coexistência. Precisamos de alteridade e igualdade, impossíveis dentro dos sistemas construídos no patriarcado. A Economia Solidária nos conclama a esperançar. Para que tenhamos décadas de novos “oito de marços”, o caos de 2026 demanda esperançar em Economia Solidária.
Homens e mulheres: reuni-vos?
Luciana Ferreira da Silva é cientista social (UNESP), mestre em Política Científica e Tecnológica (UNICAMP), doutora em Educação (USP). Docente da UNIFESP. Associada da ABPES (Associação Brasileira de Pesquisadores de Economia Solidária). Compõe a Câmara Temática Nacional de Educação Ambiental e Climática (FBMC) e o Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora (IEA/USP). Site pessoal: https://lucianaferreiradasilva.com/


