ARTIGO DE OPINIÃO (34): Trabalho invisível, trabalhador invisível e aspectos invisíveis do trabalho: uma breve reflexão – Por Davi Ribeiro dos Santos

Trabalho invisível

A menção do trabalho invisível nos remete ao trabalho doméstico atribuído à mulher que, não raro em segunda jornada, dedica muitas horas de esforço físico e mental às tarefas domésticas e ao cuidado; são atividades habitualmente ignoradas como trabalho.[1]

Mas o contexto do trabalho invisível é muito maior, englobando inúmeras atividades exercidas por homens e mulheres. Padilha, 2011[2] menciona o trabalho considerado historicamente no Brasil como inferior, sem valor, e que implica uma relação subalterna, revestida de invisibilidade. Costa, 2004[3], vivenciou esse fenômeno na sua atuação experimental como gari, em estudo da psicologia social, na Universidade de São Paulo.

Trabalhadores invisíveis

Os trabalhadores invisíveis são em grande parte integrantes de classes sociais menos favorecidas, que atuam predominantemente na informalidade, desprovidos de proteção social, em contextos socioeconômicos adversos, experimentando a ausência de reconhecimento e humilhação social, em relações precárias e instáveis de trabalho.[4] Esses trabalhadores atuam em um amplo espectro de atividades remuneradas ou não, como por exemplo, trabalhadoras domésticas diaristas, cuidadores, motociclistas e  ciclistas entregadores, empregados terceirizados em serviços gerais e de faxina, os catadores de recicláveis e os trabalhadores serviçais contratados verbalmente à beira de estradas, denominados “chapas”, que aceitam serviços avulsos em condições às vezes adversas e perigosas, desprotegidos dos riscos ocupacionais. Estas e muitas outras atividades podem ser enquadradas num contexto de vulnerabilidade ocupacional, em condições precárias de trabalho, sofrimento e sensação de inferioridade.,[5], [6]

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD, entre fevereiro e abril de 2026, a população de pessoas ocupadas com idade de 14 anos ou mais era cerca de 102 milhões, dos quais 13 milhões estavam empregados no setor privado sem carteira assinada, e 26 milhões trabalhavam por conta própria.[7]

Uma breve análise de dados do IBGE e da Previdência Social expõe um grande contingente formado por vários milhões de trabalhadores privados de recursos básicos de proteção social. São, na maioria, aqueles que exercem atividades de baixo reconhecimento social.

A relação entre fatores de natureza socioeconômica e proteção previdenciária fica evidente nos dados do Informe sobre cobertura previdenciária em 2024, referente a pessoas ocupadas com idade entre 16 e 59 anos. Menos da metade dos trabalhadores estava sob cobertura previdenciária (45%) e menos ainda, os trabalhadores domésticos (38%). Em números redondos, 27 milhões ou 30% da população ocupada estava desprotegida; destes, 12,8 milhões (48%) tinham renda inferior a um salário-mínimo, a maioria mulheres, 6,7 milhões (58,7%). Essa mesma fonte de dados demonstra que a cobertura é significativamente inferior entre os negros e menos escolarizados.[8]

A invisibilidade do trabalho não é exclusividade brasileira. Opinando sobre o crescimento da subcontratação e a segregação ocupacional no setor de tecnologia, pesquisadores da Universidade da Califórnia mencionam o contraste entre os generosos salários e benefícios oferecidos aos executivos do Vale do Silício e a invisibilidade dos trabalhadores que mantêm os ambientes limpos, transportam equipamentos e exercem as demais funções de suporte.[9]

Aspectos invisíveis do trabalho

Alguns aspectos pouco percebidos podem afetar a vida e a saúde dos trabalhadores, quando se analisa a proteção social, as oportunidades de emprego e exigências emocionais do trabalho. Não raro, barreiras invisíveis limitam o acesso à formalidade no trabalho, por idade, raça e gênero, entre outros fatores.

Sistemas informatizados de pré-seleção por critérios automáticos podem excluir um grande contingente de candidatos, privando-os de demonstrar suas habilidades e alimentando o grande contingente dos trabalhadores informais.[10]

O desemprego por insuficiência de horas trabalhadas é um aspecto presente na informalidade. Em 2022, cerca de 30% das mulheres negras estavam subutilizadas no mercado de trabalho.[11]

Entre os que estão empregados, aspectos de natureza cognitiva ou estética estão silenciosamente implícitos em diversas atividades. Em certas atividades os trabalhadores são instados pela organização a representarem permanentemente um padrão emocional artificial durante o trabalho, com sorrisos e expressões emocionais de simpatia, distantes da própria realidade dos seus sentimentos. Embora despercebido, este esforço acrescenta exigências psíquicas com potencial de interferir nas emoções, causar estresse e esgotamento.[12]

A magnitude da morbimortalidade relacionada ao trabalho pode ser incluída entre os aspectos invisíveis do trabalho, considerando-se que os dados previdenciários estão longe de expressar a realidade da população de trabalhadores. Dias e cols. (2011)[13] ressalta que as estatísticas oficiais são limitadas pela elevada subnotificação, pela baixa qualidade dos registros relativos aos trabalhadores informais, além da escassez de estudos sobre o impacto das condições de informalidade na saúde dos trabalhadores. Em 2024 foram registrados entre os segurados, 851.310 acidentes do trabalho, dos quais 3.394 foram liquidados por óbito no Brasil.[14] Dados do Ministério da Saúde reportaram 4.551 óbitos por essa causa no mesmo período. Na distribuição por categoria de CID 10, destacam-se entre os mais frequentes, os acidentes fatais com ciclistas e motociclistas, acidentes com eletricidade e as quedas de andaimes ou de altura.[15]

 

Considerações finais

Em conclusão, há um contingente formado por milhões de trabalhadores invisíveis e de trabalhadores exercendo atividades socialmente invisíveis. Parte significativa da população ocupada encontra-se na informalidade e desprovida da cobertura previdenciária. Na prática, muitos trabalhadores não se beneficiam das normas legais de saúde e segurança; sofrem adoecimentos e mortes pelo trabalho, em proporções que permanecem socialmente invisíveis. Este cenário continua sendo um desafio, no sentido da captação metódica e eficaz de dados que se aproximem da real magnitude da morbimortalidade em decorrência da precariedade do trabalho, sobretudo na informalidade.

 

Davi Ribeiro dos Santos – Médico do Trabalho e Otorrinolaringologista. Mestre em Saúde, Trabalho e Ambiente pela Fundacentro. Membro integrante do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora, Instituto de Estudos Avançados da USP.

Observação: as matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores e autoras, e não necessariamente representam posicionamentos institucionais do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora e/ou do Instituto de Estudos Avançados da USP.

  1. Tribunal Superior do Trabalho. O trabalho invisível da mulher: o que você não vê ocupa o tempo dela [Internet]. Brasília (DF): TST; 2025 mar 8 [citado 19 jun 2026]. Disponível em: https://www.tst.jus.br/-/o-trabalho-invisivel-da-mulher-o-que-voce-nao-ve-ocupa-o-tempo-dela
  2. Padilha V. A realidade do trabalho subalterno de limpeza em shopping center. Perspectivas. 2011;39:75-98. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/perspectivas/article/view/4753/4055. Acesso em: 16 jun 2026.
  3. COSTA, F. B. D. Homens Invisíveis: Relatos de uma Humilhação Social. 1º. ed. São Paulo: Globo S. A., 2004.
  4. Nascimento JCP. A invisibilidade pública e social dos trabalhadores: uma revisão da literatura sobre trabalhos invisíveis na sociedade. Rev Ibero-Am Humanid Cienc Educ [Internet]. 2022 dez;8(12):149-160 [citado 16 jun 2026]. Disponível em: https://periodicorease.pro.br/rease/article/view/8019.
  5. Feijó J. Empreender para sobreviver: quem são os trabalhadores por conta própria? [Internet]. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Economia, Fundação Getulio Vargas; 2022 jan 3 [citado 19 jun 2026]. Disponível em: https://blogdoibre.fgv.br/posts/empreender-para-sobreviver-quem-sao-os-trabalhadores-por-conta-propria.

[6] Souza ROFC, Faria FC, Silva EHA, Costa RQF. Invisibilidade no trabalho e impactos na saúde mental: uma revisão bibliográfica. In: Anais do XXIX Encontro Latino-Americano de Iniciação Científica; 2025; São José dos Campos, SP. São José dos Campos: Universidade do Vale do Paraíba; 2025. Disponível em:           https://www.inicepg.univap.br/cd/INIC_2025/anais/arquivos/RE_0466_0742_01.pdf.

[7] Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). PNAD Contínua: taxa de desocupação é de 5,8% e taxa de subutilização é de 13,8% no trimestre encerrado em abril [Internet]. Rio de Janeiro: IBGE; 2026 maio 28 [citado 19 jun 2026]. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/46888-pnad-continua-taxa-de-desocupacao-e-de-5-8-e-taxa-de-subutilizacao-e-de-13-8-no-trimestre-encerrado-em-abril.

[8] Brasil. Ministério da Previdência Social. Secretaria de Regime Geral de Previdência Social. Informe de Previdência Social [Internet]. Brasília (DF): Ministério da Previdência Social; 2025 maio;37(5) [citado 19 jun 2026]. Disponível em: https://www.gov.br/previdencia/pt-br/assuntos/previdencia-social/informes-de-previdencia-social/2025/informe-maio-2025.pdf

[9] Working Partnerships USA. Tech’s invisible workforce: a closer look at the ‘invisible’ subcontracting trend in Silicon Valley [Internet]. San Jose (CA): Working Partnerships USA; 2016 mar [citado 2026 jun 13]. Disponível em: https://wpusa.org/resources/techs-invisible-workforce/.

[10] Fuller JB, Raman M, Sage-Gavin E, Hines K. Hidden workers: untapped talent [Internet]. Boston (MA): Harvard Business School Project on Managing the Future of Work; 2021 set [citado 19 jun 2026]. 74 p. Disponível em: https://www.hbs.edu/managing-the-future-of-work/Documents/research/hiddenworkers09032021.pdf.

[11] Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Desemprego, informalidade, subutilização e inatividade [Internet]. Brasília (DF): Ipea; [s.d.] [citado 2026 jun 15]. Disponível em:     https://www.ipea.gov.br/portal/retrato/indicadores/mercado-de-trabalho/desemprego-informalidade-subutilizacao-e-inatividade/apresentacao

[12] Wingfield AH. What happens when the work we do is invisible? [Internet]. Forbes. 2026 Jan 16 [citado 2026 jun 12]. Disponível em: Forbes.

[13] Dias EC, Oliveira RP, Machado JH, Minayo-Gomez C, Perez MAG, Hoefel MGL, et al. Condições de emprego e iniquidades em saúde: um estudo de caso no Brasil. Cad Saúde Pública. 2011;27(12):2452-60. doi:10.1590/S0102-311X2011001200016.

[14] Brasil. Ministério da Previdência Social. Anuário Estatístico de Acidentes do Trabalho 2024: Seção I – Estatísticas de acidentes do trabalho [Internet]. Brasília (DF): Ministério da Previdência Social; 2024 [citado 2026 jun 16]. Disponível em: https://www.gov.br/previdencia/pt-br/assuntos/previdencia-social/arquivos/AEAT-2024/secao-i-estatisticas-de-acidentes-do-trabalho.

[15] Brasil. Ministério da Saúde. Departamento de Informática do SUS (DATASUS). Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM): óbitos por causas externas [Internet]. Brasília (DF): Ministério da Saúde; [s.d.] [citado 2026 jun 16]. Disponível em: https://tabnet.datasus.gov.br/cgi/tabcgi.exe?sim/cnv/ext10uf.def.