Há algumas semanas, uma notícia estremecedora sacudiu mais do que só as redes sociais: uma cliente de uma academia, aos 27 anos, morreu após ser intoxicada pela água da piscina. O que inicialmente poderia parecer um caso isolado desencadeou uma reflexão inevitável sobre organização do trabalho, condições laborais e a cultura sistêmica de sobrecarga que atravessa setores diversos da economia.
Nos relatos levantados durante a investigação, emergiu uma figura familiar — e que poderia ser de qualquer organização: o “Severino”. Aquele trabalhador que, por vezes em tom de brincadeira nas conversas, vira nome simbólico de alguém que “faz de tudo”. No caso concreto, Severino José da Silva, de 43 anos, era um homem contratado como manobrista que acabou também acumulando funções de porteiro, piscineiro, limpador, gestor de equipamentos — sem nenhum treinamento formal para nenhuma das outras atividades.
Isso não é excepcional: é estrutural.
Vivemos numa era em que a globalização — impulsionada por lógica de competitividade e busca incessante por redução de custos — alimenta um modelo de gestão que demanda cada vez mais, de menos pessoas. Seja em pequenas empresas ou em grandes instituições como hospitais, bancos ou redes de ensino, a equação repetida é a mesma: “menos profissionais para fazer mais atividades”, sem considerar formação, preparo ou condições reais de trabalho.
Essa forma de organização, ao diluir funções e responsabilidade, tem efeitos muito concretos na saúde dos trabalhadores e na segurança de quem utiliza serviços (Couto, 2014).
No Brasil, dados recentes expõem um quadro preocupante: os afastamentos do trabalho por transtornos mentais mostraram um aumento de cerca de 80% entre 2023 e 2025, segundo levantamento da Associação Nacional de Medicina do Trabalho com base em registros do INSS — saltando de aproximadamente 219 mil para quase 394 mil concessões de benefícios previdenciários nesse período. O custo desses benefícios ultrapassou R$ 954 milhões em 2025, mais que o dobro dos valores observados alguns anos antes (ANAMT, 2026; INSS, 2025).
Estudos apontam que cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros convivem com a síndrome de burnout, condição definida pela Organização Mundial da Saúde como resultado de estresse crônico no trabalho (OMS, 2019), já reconhecida e debatida no cenário nacional (COFEN, 2023).
Pesquisas anteriores também já indicaram que 43% dos trabalhadores brasileiros se dizem sobrecarregados, enfrentando simultaneamente pressão por resultados, metas inalcançáveis e uma expectativa de disponibilidade constante além de suas funções formais (FGV, 2023).
No contexto assistencial, a sobreposição de atividades e a pressão por desempenho associadas à falta de suporte técnico e organizacional são reconhecidas como fatores que elevam o risco de eventos adversos — tanto para pacientes quanto para profissionais de saúde (Aiken, Clarke & Sloane, 2002).
Enquanto isso, setores como educação, serviços e finanças relatam crescentes níveis de exaustão mental e redução da capacidade de recuperação frente às demandas de trabalho (Dejours, 1992).
Diante dos expostos, farei uso da fala de Vincent de Gaulejac, que diz:
“O trabalho humano não é mais um valor, mas um simples meio a serviço da produtividade e da lucratividade do capital” (Bandini, De Lucca & Lauriano, 2023).
A sociedade tende a reagir apenas quando a precarização produz consequências extremas — quando há morte, dano grave ou quando um caso viraliza nas redes. Mas, nesta e em tantas outras situações, o que está em jogo é o custo humano de modelos que promovem polivalência forçada, insegurança funcional e desgaste psíquico (Karasek, 1979).
Dizer que o trabalhador deve “dar um jeito” não é apenas ingênuo — é uma forma de naturalizar perdas humanas e negligenciar que condições de trabalho saudáveis são pré-condições para segurança, qualidade e dignidade no trabalho (Couto, 2014; Dejours, 1992).
A grande provocação, então, é esta: até quando vamos aceitar que vidas sejam comprimidas em esquemas que privilegiem apenas números de produtividade ou redução de custos?
Até quando o “Severino faz tudo” continuará sendo um eufemismo que disfarça a precarização do trabalho?
Porque, quando todos fazem tudo sem preparo, sem respaldo e sem condições minimamente seguras, algo essencial deixa de ser feito como deveria.
E o custo — de saúde, de vidas, de alma — aparece.
Maurem Aparecida Montes da Silveira – Mestranda Saúde Coletiva / Saúde do Trabalhador – Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/UNICAMP). Membra integrante do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora (IEA/USP).
Referências
Aiken, L. H., Clarke, S. P., Sloane, D. M. (2002).
Hospital staffing, organization, and quality of care. International Journal for Quality in Health Care.
ANAMT – Associação Nacional de Medicina do Trabalho. (2026).
Levantamento sobre afastamentos por transtornos mentais com base em dados do INSS.
Bandini, M.; De Lucca, S.; Lauriano, A. (2023).
Desse jeito não dá mais: trabalho doente e sofrimento mental. Vol. 1. 1ª edição.
COFEN – Conselho Federal de Enfermagem. (2023). Burnout e saúde mental no trabalho.
Couto, H. A. (2014).
Ergonomia aplicada ao trabalho. Belo Horizonte: Ergo.
Dejours, C. (1992).A loucura do trabalho. São Paulo: Cortez.
FGV – Fundação Getulio Vargas. (2023).
Pesquisa nacional sobre sobrecarga e saúde mental no trabalho.
Karasek, R. A. (1979).
Job demands, job decision latitude, and mental strain. Administrative Science Quarterly.
OMS – Organização Mundial da Saúde. (2019). Burn-out an occupational phenomenon (ICD-11).
INSS – Instituto Nacional do Seguro Social. (2025).
Dados de benefícios concedidos por transtornos mentais.


