Por Itumbiara, a Avenida Beira Rio virou espécie de imenso canteiro de obras; com recursos absolutamente públicos, os “donos da cidade” levantam prédios e estruturas como se estivessem a brincar de Lego.
Fazem, fazem e fazem!
Sem plano ou estudo de impactos, isso e que tratamos por Beira Rio será o maior e mais infame estacionamento de Goiás; desse modo, o que deveria ser público – a Avenida – estará ao pleno e inteiro dispor de vaidosos, consumistas e pedantes “reis do agro”.
As propagandas sobre os novos imóveis e que despontam em velocidade estonteante quase não tratam da moradia e sim, da real possibilidade de “investir” para “ganhar dinheiro” e “investir” e “ganhar dinheiro” e “investir” e…
Bairros periféricos e marginalizados como o Dionária Rocha, Remy Martins ou Marolina oscilam confusos, desprezados e caóticos entre o abandono, a escuridão e a indiferença social.
Áreas verdes, conforme se verifica, estão absolutamente restritas, por óbvio, aos pedaços, aos nacos nobres da “Capitania da Cana”; às periferias rotas e entupidas de trabalhadores nordestinos, caboclos e pretos ou quase todos pretos, resta a disciplina pela repressão, o silêncio e o aceite manso, brutal e massificante de uma cidade que optou por não vê-los ou percebê-los.
Resta o vício do álcool, do cigarro vagabundo ou as possibilidades anticristãs e anticatólicas de corpos sedentos, pulsantes e ávidos por algum prazer; são cinzentos, enfumaçados e cheiram a gasolina.
Corpo é política e o pecado de um corpo que se quer, que quer “eros”, prazer e gozo é a resposta possível ao peso opressor de um cotidiano de muito trabalho, invisibilidade e violência simbólica e impiedosamente espraiada por toda a cidade.
E a rebelião corre solta; ainda que inconscientemente, não assumida, não reconhecida ou anunciada. A rebelião, ora, está nas tatuagens de corpos silenciados, mas que, claro, querem falar; na indecifrável estética sub-rural e sub-urbana nada razoável, nada discreta mas dotada de originalidade única; reside na homo-afetividade que escandaliza nossa tradição cristã e lusitana de cada dia e, por óbvio, assentada na culpa, na penitência e na submissão.
A cidade explode em conflitos silenciosos, não ditos ou reconhecidos!
O poder institucional e que, sob outras circunstâncias, teria o atributo magistral e superior de mediar o caos social e societário em que estamos afundados já não nega das suas preferências, das suas cores e opções e, de forma protocolar e burocrática, milita, age de maneira constante e perene em prol do estamento e que por cem anos lhe impõe ordem e mando.
Itumbiara é do latifúndio, do agronegócio, da extrema direita e do “sinhô Jesus”; é a mesma parcela de gente que usurpa o chão público, que cotidianamente comete os maiores crimes ambientais e que faz da diversidade e da potência do Cerrado, cinza, desterro e clareira.
Ora, ora… Nós somos a cana!
Somos seu doce, seu caldo e seu bagaço… Somos o combustível fácil que alimenta a caldeira, somos o vapor barato, a energia gerada, o lucro conferido, o dividendo auferido, a caminhonete bacana, a vaidade do homem branco, a luxúria e a prostituição realizada no terraço de imponente prédio em pleno litoral do Rio de Janeiro.
Somos a onisciência, a onipresença, somos a força, seu nexo, sua coerência e a razão de tudo o que se apresenta e a possibilidade única de dar forma e erguer coisas belas.
Somos o povo! Somos a cana!
Angelo Cavalcante – Economista, cientista político e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara Analista do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora (Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo – IEA/USP).


