Poucos objetos resistem tanto à evidência imediata quanto o trabalho. O modo como os trabalhadores percebem a própria condição, o cansaço que sentem, a autonomia que desejam, a justiça que atribuem ou negam às hierarquias sociais, parece dado da experiência cotidiana quando é resultado de uma longa formação histórica. No Brasil, essa formação carrega marcas que antecedem a própria ideia de trabalho livre. A escravidão prolongada, a abolição sem incorporação social dos libertos, a coexistência de formas compulsórias e assalariadas ao longo do século XIX deixaram um sedimento que a legislação trabalhista do século seguinte procurou, a um só tempo, organizar e disciplinar. O trabalhador protegido, figura que hoje parece natural, foi construção tardia e disputada.
A imagem mais recente desse processo é de dissolução. O emprego com carteira assinada, que por décadas serviu de horizonte e de medida da cidadania social brasileira, recua diante da informalidade persistente, da terceirização, da pejotização e do trabalho intermediado por plataformas digitais. No lugar do assalariamento protegido avança o negócio próprio, o microempreendedor, o prestador de serviço que se diz dono de si. Junto com a mudança nas formas de contratação alteram-se as disposições subjetivas dos trabalhadores, a maneira de explicar o sucesso e o fracasso, a adesão ou a recusa à solidariedade, a tolerância ao esgotamento. Descrever com precisão esse estado de espírito é tarefa necessária. Compreendê-lo exige perguntar de onde ele vem, e essa pergunta é histórica antes de ser estatística.
É a essa tarefa de descrição que se dedica Brasil no espelho, de Felipe Nunes, publicado em 2025. O livro inscreve-se na tradição da ciência política empírica fundada em pesquisas de opinião de larga escala. Deriva de um levantamento da Quaest realizado entre novembro e dezembro de 2023, com 9.994 entrevistados em 340 municípios de 26 estados e do Distrito Federal, amostra que o autor descreve como quase cinco vezes superior à das pesquisas tradicionais de opinião (NUNES, 2025, p. 9)[1]. A partir desse material, Nunes constrói um mapa de valores, atitudes e percepções organizado em 37 índices distribuídos por onze dimensões, entre as quais figura a meritocracia (NUNES, 2025, p. 9). O procedimento dialoga com a pesquisa comparada de valores associada a Ronald Inglehart, cujo gráfico de posições culturais o autor mobiliza ao situar o Brasil entre os países mais tradicionais que seculares (NUNES, 2025, p. 46). O propósito declarado não é expor a visão de um autor sobre o país, e sim devolver aos brasileiros a imagem que eles próprios produzem de si, ao descrever, nas palavras da obra, “nossa média e nosso desvio” (NUNES, 2025, p. 8).
O trabalho ocupa, nessa arquitetura, posição peculiar. Não constitui objeto autônomo, e sim vetor que atravessa a dimensão do individualismo e do mérito. O próprio Nunes resume o quarto capítulo como o retrato de “um mercado de trabalho de pessoas cansadas, que não defendem políticas de redistribuição de renda nem gostam de cotas” (NUNES, 2025, p. 10). A formulação antecipa o método. O mercado de trabalho é lido pela via das disposições subjetivas dos trabalhadores, o cansaço, o desejo de autonomia, a adesão ao esforço pessoal, e não pela via das relações de produção ou da regulação jurídica.
O cansaço ocupa o centro do diagnóstico. Questionados de forma espontânea sobre como se sentiam, 51% dos brasileiros relataram cansaço ou emoções negativas como exaustão, tristeza, ansiedade e medo (NUNES, 2025, p. 59). O sentimento se distribui de modo desigual. As mulheres se declaram mais cansadas que os homens, o que o autor atribui ao peso da dupla ou tripla jornada do trabalho assalariado, do trabalho doméstico e do cuidado com os filhos (NUNES, 2025, p. 59). O cansaço acompanha também a renda, a escolaridade e a idade. Quanto mais alta a classe social, menos cansado o brasileiro se diz, e quanto mais velho, mais cansado (NUNES, 2025, p. 59-60). O esgotamento aparece socialmente estratificado antes de ser interpretado.
As raízes materiais desse cansaço recebem atenção cuidadosa. No plano subjetivo, ele se associa à insatisfação com a vida e com a situação financeira, pois entre os insatisfeitos com a vida 73% relatam cansaço, contra 44% dos satisfeitos (NUNES, 2025, p. 60). No plano prático, surge o dado que organiza boa parte da interpretação. Seis em cada sete brasileiros, ou 84%, precisam de mais de um trabalho para complementar a renda, e 83% afirmam querer um negócio próprio para não ter mais patrão (NUNES, 2025, p. 60). O cansaço, nessa leitura, tem origem econômica direta. Decorre da insuficiência da renda e da multiplicação de jornadas, e o trabalho aparece, para a maioria, como meio de pagar as contas mais do que como realização pessoal (NUNES, 2025, p. 67).
É a partir desses números que Nunes formula sua tese mais densa sobre o mercado de trabalho contemporâneo, a do “empreendedorismo de exaustão”. A passagem articula renda volátil, plataformas digitais e a substituição do vínculo assalariado pela figura do contratante individual, e merece transcrição integral.
Esses números apontam para um “empreendedorismo de exaustão”: menos CLT e mais CNPJ não apenas por vocação, mas como resposta defensiva ao aperto de renda e à multiplicação de bicos. O desejo de “não ter patrão” (83%) mistura busca de autonomia com a percepção de que a regra do jogo empurra o risco para o indivíduo: o MEI barateia a porta de entrada, as plataformas reduzem barreiras de acesso e o crédito digital dá fôlego — mas tudo isso opera com renda volátil, jornada esticada e proteção social limitada. Na prática, parcela relevante do que se chama de “empreender” é pejotização do trabalho, que preserva a aparência de liberdade enquanto amplia a responsabilidade individual por receitas, custos e seguros contra o azar. O resultado é um ciclo em que o cansaço não é acidente, é engrenagem: trabalha-se mais para estabilizar a renda e, ao estabilizá-la, assume-se ainda mais risco. Esse arranjo alimenta valores de autoculpa e heroísmo produtivo, o que vem junto com o avanço do individualismo no Brasil e como ele molda expectativas, identidades e a tolerância social ao cansaço crônico. (NUNES, 2025, p. 61-62)
A passagem reúne o núcleo do argumento. Nunes não celebra o empreendedorismo. Lê o desejo de não ter patrão como reação defensiva ao aperto de renda, e nomeia com precisão os mecanismos que deslocam o risco para o trabalhador, o MEI, as plataformas, o crédito digital e a pejotização. É também aqui, e quase só aqui no corpo do capítulo, que os trabalhadores por aplicativo comparecem. Surgem subsumidos na categoria do empreender de exaustão, como expressão de um arranjo que “preserva a aparência de liberdade enquanto amplia a responsabilidade individual” (NUNES, 2025, p. 62). O tratamento é breve e analítico. Não há descrição das jornadas, dos rendimentos ou das formas concretas de subordinação algorítmica, embora o autor reconheça que a autonomia anunciada convive com proteção social limitada.
Do cansaço e do empreendedorismo de exaustão, o argumento passa ao mérito. Os brasileiros valorizam o trabalho individual e, por isso, mostram-se avessos a políticas de redistribuição de renda e a cotas (NUNES, 2025, p. 72). A ajuda aos pobres é condicionada a uma ideia de merecimento. Para 56% dos entrevistados os pobres não se esforçam para melhorar a renda, e 67% sustentam que “só se deve ajudar quem faz por merecer” (NUNES, 2025, p. 74). A adesão a essa moral varia pouco com a renda, pois ricos e pobres pensam de modo semelhante, o que afasta a hipótese de que se trate apenas de interesse de classe (NUNES, 2025, p. 75).
O argumento ganha sua dobra mais fina quando o autor mostra que essa moral do merecimento não corresponde a uma crença na mobilidade social. “Os brasileiros não acreditam em mobilidade social”, escreve, e atribuem a riqueza ao acaso da origem antes que ao esforço (NUNES, 2025, p. 80). A riqueza é vista como destino, e ainda assim os ricos são tidos como merecedores de sua posição, ao passo que os pobres precisam fazer por merecer para serem ajudados (NUNES, 2025, p. 81). A assimetria decide o sentido do conjunto. O mérito opera como exigência moral dirigida aos de baixo, não como explicação do êxito dos de cima. Nunes leva a observação ao limite ao registrar que “o mérito e o esforço pessoal, valores mais associados à direita no contexto internacional, não são valores caros à direita no Brasil” (NUNES, 2025, p. 82). A meritocracia brasileira, nessa leitura, é menos fé na ascensão e mais dispositivo de recusa da solidariedade.
A percepção sobre a redistribuição confirma o paradoxo e revela o solo comum de onde tudo brota. A oposição a políticas focalizadas convive com adesão quase unânime ao Estado provedor universal, pois para 96% dos brasileiros o governo deveria garantir boas condições a todos e 98% consideram dever do Estado oferecer educação e saúde gratuitas (NUNES, 2025, p. 77). A recusa recai sobre o foco, não sobre a provisão. Programas como o Bolsa Família são vistos por 71% como desincentivo ao trabalho, enquanto a tributação dos mais ricos para aliviar os mais pobres reúne 63% de apoio (NUNES, 2025, p. 77-78). Esse solo comum é o individualismo. Três em cada quatro brasileiros, 74%, acreditam que só podem contar consigo mesmos para conquistar o que desejam (NUNES, 2025, p. 73), traço mais intenso entre os mais pobres e associado ao desamparo, à percepção de que se luta sozinho, e não ao otimismo do self-made man. O cansaço deixa de ser acidente e se torna engrenagem de um arranjo que alimenta “valores de autoculpa e heroísmo produtivo” (NUNES, 2025, p. 62).
A inserção feminina no mercado de trabalho é tratada, sobretudo, como questão de valores. Nunes registra ampla adesão à independência financeira das mulheres, pois entre 90% e 94% dos homens e entre 93% e 96% das mulheres concordam que elas devem trabalhar e ter seu próprio dinheiro, e o autor sintetiza o achado na fórmula de que “o conservadorismo brasileiro se rende às finanças” (NUNES, 2025, p. 45). O apoio à autonomia econômica feminina cresce quando “o tema vai para o bolso”, mesmo em meio a normas de gênero ainda conservadoras (NUNES, 2025, p. 57). Esse reconhecimento atitudinal convive com a constatação da dupla e tripla jornada que recai sobre as mulheres (NUNES, 2025, p. 59) e com a percepção, mais aguda entre mulheres negras, de tratamento desigual no ambiente de trabalho (NUNES, 2025, p. 54). A participação feminina aparece pela via das atitudes e das percepções de discriminação, não pela reconstituição das taxas históricas de participação ou das trajetórias ocupacionais.
A leitura do empreendedorismo como identidade social se adensa no capítulo dedicado à segmentação. Com base em 197 variáveis e em um modelo de clusterização, Nunes divide a sociedade em nove segmentos identitários, entre os quais o dos empreendedores individuais, correspondente a 5% da população (NUNES, 2025, p. 144-145). O segmento é descrito como novo no Brasil e reúne trabalhadores sem vínculo empregatício, “como prestadores de serviço por aplicativo, que se consideram empreendedores de classe média, mesmo tendo renda baixa” (NUNES, 2025, p. 145-146). A caracterização do grupo merece transcrição, pois nela o trabalho por aplicativo e a ausência de carteira assinada são lidos como atributos de uma identidade.
Os empreendedores individuais são os integrantes da nova economia de trabalhadores que atuam sem vínculo trabalhista e sem os benefícios da carteira assinada. É um grupo formado majoritariamente por homens, que muitas vezes se enxergam como empreendedores e, por isso, valorizam o individualismo. São os mais suscetíveis ao discurso do esforço pessoal e da busca da riqueza, popularizado por influenciadores em redes sociais, e os mais refratários a organizações tradicionais, como sindicatos. (NUNES, 2025, p. 172)
A definição é precisa quanto à posição objetiva do grupo, sem vínculo trabalhista, sem carteira assinada e com renda baixa, e quanto à sua autopercepção, a de empreendedor de classe média. O que organiza a análise, porém, é a identidade e o comportamento eleitoral do segmento, sua adesão à privatização, ao punitivismo e à ideia de que diferenças salariais devem premiar o esforço pessoal (NUNES, 2025, p. 172-174). A categoria do trabalhador por aplicativo é absorvida por uma tipologia de valores. A condição laboral fornece o substrato, mas o foco recai sobre a autoimagem e o voto. Esse deslocamento, do trabalho como relação para o empreendedorismo como identidade, é escolha deliberada do autor, e reaparece quando ele examina as gerações.
A classificação geracional oferece o registro mais explícito das mudanças nas formas de trabalho. Nunes propõe quatro gerações com nomes de sabor brasileiro (NUNES, 2025, p. 9). A Geração Bossa Nova, nascida entre 1945 e 1964, foi “a primeira geração a ir ao mercado sob a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), implantada no período Getúlio Vargas”, e, também, a primeira a ser afetada pela chegada da mulher ao mercado de trabalho (NUNES, 2025, p. 180). A Geração Redemocratização, nascida entre 1985 e 1999, enfrentou “ondas de desemprego e o início do fim da carteira assinada no mercado de trabalho” (NUNES, 2025, p. 181). A Geração.Com, nascida entre 2000 e 2009, vive num país “onde são poucos os cargos de acordo com a CLT e onde o trabalho remoto é algo comum” (NUNES, 2025, p. 181). A transformação das formas de inserção laboral é inscrita como marcador de época, da generalização do assalariamento protegido ao seu refluxo.
Um balanço deste livro deve começar pela medida exata de sua força. A amplitude empírica é de outra ordem, com 9.994 entrevistados em 340 municípios, base que sustenta a segmentação fina da população e a construção de 37 índices distribuídos por onze dimensões (NUNES, 2025, p. 9). A sofisticação das pesquisas de opinião e o emprego de um modelo de clusterização com 197 variáveis produzem uma tipologia social de real utilidade heurística (NUNES, 2025, p. 144). A identificação do segmento dos empreendedores individuais é um achado preciso, pois confere visibilidade estatística a uma figura social emergente, o trabalhador sem vínculo que se concebe como empreendedor (NUNES, 2025, p. 146). Nenhuma das observações que seguem diminui esse alcance. Elas dizem respeito ao que o retrato, por sua própria natureza, não se propõe a fazer.
O objeto do livro são valores e percepções, não a história social do trabalho. A distinção importa porque define o que se pode e o que não se pode pedir a ele. Categorias decisivas para a vida do trabalhador brasileiro comparecem como marcos laterais. A CLT é citada em três passagens, sempre como referência temporal ou como instituição em declínio, nunca como objeto de análise (NUNES, 2025, p. 61, 180, 181). Tratada de perto pela história do trabalho, porém, a CLT desmente esse retrato de instituição inerte. Fernando Teixeira da Silva observa que a consolidação sofreu 233 alterações entre 1943 e 2016, a maior parte durante a ditadura militar, o que a torna um estatuto de “rigor flexível, adaptável a diferentes regimes políticos e conjunturas históricas” (SILVA, 2019). Longe de estacionada no tempo de sua criação, a legislação trabalhista foi terreno contínuo de disputa, submetida, inclusive, a sucessivas flexibilizações. A carteira assinada aparece duas vezes, como benefício ausente do segmento dos empreendedores individuais e como sinal do início do fim do assalariamento formal (NUNES, 2025, p. 172, 181). A reforma trabalhista de 2017, que reorganizou o direito do trabalho no país e acelerou justamente os processos que o livro descreve, não é tematizada. As instituições do trabalho funcionam, no retrato, como pano de fundo de uma transição cultural, não como o terreno em que essa transição foi disputada.
A moral do merecimento, eixo de todo o argumento, é descrita em sua prevalência estatística (NUNES, 2025, p. 215), mas não em sua gênese. Ela tem história. A naturalidade com que parcela tão grande da população condiciona a solidariedade ao esforço individual não brota do vazio, e sua formação atravessa a longa duração do trabalho compulsório, a escravidão e uma abolição que libertou sem integrar. O esforço pessoal como critério de merecimento, num país que ao mesmo tempo não acredita na mobilidade social, é menos um traço cultural difuso e mais o sedimento de uma ordem que precisou justificar a desigualdade depois de abolir a escravidão sem redistribuir terra, renda ou direitos. A categoria emerge medida com rigor, e ainda assim por compreender em sua formação.
É nesse ponto que uma leitura histórica do trabalho oferece o que o levantamento não pode oferecer. O trabalhador protegido, que o livro encontra já constituído como dado de percepção, não nasceu como percepção. Foi construção historicamente produzida, atravessada pelo Estado, pela legislação, pelo sindicalismo, pela ideologia trabalhista e pelo conflito social. Ângela de Castro Gomes mostrou como, no Brasil dos anos 1930 e 1940, os direitos do trabalho foram menos conquista reconhecida do que doação encenada pelo Estado varguista, num pacto que convertia proteção em lealdade política e fundava uma cultura do trabalho cujas marcas ainda organizam as expectativas dos trabalhadores brasileiros (GOMES, 2005). Magda Barros Biavaschi, ao reconstituir a formação do direito do trabalho brasileiro entre 1930 e 1942, recusa a leitura que reduz essa legislação a cópia do modelo fascista ou a simples outorga estatal.
A questão central deste estudo é mostrar que a história da constituição dos direitos sociais brasileiros, mais especificamente do Direito material do Trabalho e das instituições aptas concretizá-lo, não cabe no enunciado de cópia do modelo fascista. […] um estatuto jurídico que, desde o seu nascedouro, contrapõe-se à idéia de que o resultado ótimo do encontro das vontades de “indivíduos livres” tornará as relações mais homogêneas e harmônicas. (BIAVASCHI, 2005, p. 6)
O direito do trabalho aparece, assim, como estatuto construído contra a promessa liberal de que o livre encontro de vontades bastaria para harmonizar as relações sociais. A ação coordenadora do Estado foi decisiva nessa construção, segundo a autora, sem que isso signifique adesão ao “mito da outorga” (BIAVASCHI, 2005, p. 13). A figura do assalariado com carteira não foi condição natural cujo desaparecimento se possa apenas constatar, e sim efeito de décadas de disputa sobre o sentido público do trabalho. Recuperar essa formação permite entender que o desejo contemporâneo de não ter patrão dialoga com a memória de uma proteção que nunca foi universal nem inteiramente própria. A história social do trabalho, atenta à experiência concreta dos trabalhadores no sentido que Edward Thompson deu ao termo, reconstrói o que o instantâneo estatístico congela, o modo como esses estados subjetivos se formaram na duração, no embate entre práticas econômicas, instituições e formas de reconhecimento (THOMPSON, 1987).
A mesma ausência de espessura histórica afeta o tratamento do empreendedorismo, tomado sobretudo como identidade social. O livro registra com acerto que parcela dos trabalhadores sem vínculo se concebe como empreendedora de classe média, mas a autoimagem é descrita, não explicada por suas determinações, a reorganização produtiva, a transferência do risco para o indivíduo, a regulação ainda em disputa do trabalho em plataformas. Seria injusto dizer que Nunes ignora a precarização. Ele a nomeia. Registra a pejotização e a proteção social limitada (NUNES, 2025, p. 62), a ausência de carteira assinada (NUNES, 2025, p. 172) e a renda instável que marca a juventude, ao caracterizar a Geração.Com no seguinte quadro.
Contudo, vive sob ansiedade e cansaço, com múltiplos trabalhos e sofrendo com a insegurança urbana e com uma renda instável. Esse quadro produz ambivalências: maior tolerância privada e demanda pública por ordem; repertório identitário mais aberto e voto de acordo com o desempenho dos governos. (NUNES, 2025, p. 216)
A precarização aparece, portanto, nomeada, mas não historicizada. É tratada como atributo de um segmento e como traço de uma condição geracional, não como processo de longa data inscrito na própria formação do mercado de trabalho brasileiro, onde a informalidade nunca foi exceção transitória, e sim estrutura. O nome capta o fenômeno. Falta a ele a história que o produziu.
Daí não se conclui que o autor tenha errado, e sim que escreveu um livro de natureza diferente daquela que a crítica histórica gostaria de ver. O valor de Brasil no espelho está menos nas respostas que oferece do que nas perguntas que torna possíveis. Ao fixar com precisão estatística o que os brasileiros pensam hoje sobre trabalho, mérito e cansaço, ele entrega à interpretação histórica um ponto de partida raro, um retrato nítido cuja própria nitidez cobra explicação. De onde vêm essas percepções, como se formaram ao longo da escravidão, da abolição, da invenção do trabalhismo e de sua erosão recente, que conflitos sociais carregam sob a aparência de opinião espontânea, são questões que o livro não responde porque não as formula, e que se tornam incontornáveis depois de o ler. O próprio Nunes reconhece que as interpretações clássicas do país “estão anos-luz à frente do exercício proposto aqui” (NUNES, 2025, p. 210). A frase é exata, e indica a direção. O espelho devolve uma imagem de alta definição. Cabe à história explicar como o rosto que nele aparece foi, ao longo de mais de um século, sendo esculpido.
REFERÊNCIAS
BIAVASCHI, Magda Barros. O direito do trabalho no Brasil – 1930/1942: a construção do sujeito de direitos trabalhistas. 2005. Tese (Doutorado em Economia Aplicada) – Instituto de Economia, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2005.
GOMES, Ângela de Castro. A invenção do trabalhismo. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2005.
NUNES, Felipe. Brasil no espelho: um guia para entender o Brasil e os brasileiros. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2025.
SILVA, Fernando Teixeira da. Reforma trabalhista: emprego, tempo e história. In: SPERANZA, Clarice Gontarski (org.). História do trabalho: entre debates, caminhos e encruzilhadas. Jundiaí: Paco Editorial, 2019.
THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. 3 v.
Erik Chiconelli Gomes – Doutor e Mestre em História Econômica pela USP. Pós-doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela USP. Pós-doutor em Economia pelo Instituto de Economia da Unicamp. Membro integrante do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora (Instituto de Estudos Avançados da USP). Linkedin: bit.ly/LinkedInECG – Lattes: bit.ly/LattesECG – e-mail: erik.gomes@usp.br
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[1]As referências de página remetem à edição digital, em formato Kindle (https://a.co/d/0jkNIbfy) , de Brasil no espelho efetivamente consultada, cuja paginação pode divergir da edição impressa.