Hoje meu amigo René Mendes publicou na sua página no Facebook uma imagem de um dos muitos murais que vemos diariamente na loucura apressada de uma grande cidade como São Paulo, mas que evitamos olhar com olhos de enxergar. Esse mural em particular é do ‘artivista’ Mundano (@mundano_sp), localizado na Rua Jaceguai, na Bela Vista.
A obra é uma homenagem e um manifesto dedicado às catadoras e catadores de materiais recicláveis. A imagem faz uma releitura do mito de Atlas, retratando uma catadora descalça que carrega o peso do planeta Terra nas costas em formato de uma enorme “bag” de recicláveis, simbolizando a sobrecarga invisível e a devastação ambiental enfrentada.
Fiel ao seu estilo de “artivismo”, Mundano utilizou materiais carregados de protesto ecológico na fabricação das tintas. A pintura conta com cinzas de florestas queimadas da Amazônia (da aldeia Anambé, no Pará), além de argilas e lamas coletadas em áreas afetadas por crimes ou desastres ambientais.
Mundano é o nome artístico de Thiago Mundano, um renomado grafiteiro, ativista e empreendedor social brasileiro. Autodefinido como um “artivista”, ele ganhou reconhecimento internacional ao usar a arte urbana como ferramenta de denúncia política, social e ambiental.
Este mural é particularmente potente porque opera em vários níveis ao mesmo tempo. À primeira vista, vemos uma mulher carregando um enorme globo terrestre preso às costas por um tecido improvisado. Num segundo olhar, percebemos que ela também leva um saco cheio de materiais recicláveis, um megafone e sobe uma ladeira coberta por resíduos.
A imagem deixa de ser apenas uma representação de uma catadora e passa a condensar uma reflexão sobre trabalho, desigualdade, gênero e sustentabilidade. Sob a perspectiva do mundo do trabalho, o mural rompe com a ideia de que a reciclagem é resultado de um sistema eficiente de gestão de resíduos.
Na verdade, evidencia que a economia circular nas grandes cidades brasileiras depende de um enorme contingente de trabalhadores invisibilizados. São eles que coletam, separam e reinserem toneladas de materiais na cadeia produtiva, reduzindo custos ambientais e econômicos para toda a sociedade.
Mundano, cuja trajetória está profundamente ligada aos catadores por meio do projeto Pimp My Carroça, transforma essa trabalhadora em protagonista da paisagem urbana, conferindo monumentalidade a uma profissão normalmente ignorada. A escolha de uma mulher amplia ainda mais o significado da obra.
Ela representa a dupla ou tripla jornada que marca a vida de tantas trabalhadoras. Além da atividade produtiva, recaem sobre elas responsabilidades relacionadas ao cuidado da família, da casa e dos filhos. O enorme planeta preso às costas não simboliza apenas o peso ambiental da cidade, mas também o conjunto de expectativas sociais historicamente depositadas sobre as mulheres.
O trabalho de cuidar, quase sempre invisível e pouco valorizado, aparece fundido ao trabalho de sobreviver. Nesse ponto surge a referência explícita ao mito de Atlas. Na tradição grega, Atlas é condenado a sustentar o céu sobre os ombros por toda a eternidade. Mundano atualiza esse mito substituindo o titã por uma catadora.
O efeito é profundamente político: não são os heróis mitológicos que sustentam o mundo contemporâneo, mas trabalhadores anônimos. O planeta não está apoiado sobre músculos divinos, mas sobre o corpo cansado de alguém cuja contribuição raramente é reconhecida.
A mensagem parece afirmar que a sustentabilidade das metrópoles repousa justamente sobre aqueles que ocupam a base da hierarquia social. Entretanto, a imagem talvez convoque outro mito de maneira ainda mais contundente: Sísifo.
Enquanto Atlas suporta um peso permanente, Sísifo é condenado a empurrar incessantemente uma pedra montanha acima apenas para vê-la rolar novamente. Seu castigo não é apenas o esforço físico, mas a repetição infinita de um trabalho cujo resultado nunca se consolida. A rotina das catadoras e dos catadores nas grandes cidades guarda uma inquietante proximidade com esse mito.
Todos os dias, milhares de pessoas percorrem quilômetros recolhendo aquilo que a cidade descarta. No dia seguinte, novos resíduos ocupam seu lugar. A montanha nunca diminui. O trabalho precisa recomeçar. A recompensa permanece limitada, enquanto o reconhecimento social quase inexiste.
Há uma diferença decisiva, porém. Em Camus, Sísifo representa o absurdo da existência. No mural de Mundano, esse trabalho repetitivo produz um bem coletivo extremamente concreto. Cada material recuperado significa menos extração de recursos naturais, menos emissão de carbono, menos resíduos enviados aos aterros e maior geração de renda.
O paradoxo está justamente aí: um trabalho absolutamente essencial continua sendo tratado como periférico. Também chama atenção o megafone preso ao corpo da personagem. Ele não é uma ferramenta da coleta. É um instrumento de voz.
Parece sugerir que essas trabalhadoras não precisam apenas de melhores condições materiais, mas também de representação política e reconhecimento público. É como se a própria arte emprestasse volume à voz daqueles que historicamente permaneceram inaudíveis.
O terreno sobre o qual ela caminha também merece atenção. Não é uma paisagem natural. É um solo construído por restos de consumo, embalagens, objetos descartados e ferramentas abandonadas. A cidade aparece literalmente edificada sobre aquilo que rejeita. A catadora, paradoxalmente, é quem consegue enxergar valor onde a sociedade só vê lixo.
Há ainda uma dimensão simbólica muito forte na composição. Enquanto Atlas costuma ser representado imóvel, suportando um peso estático, essa personagem está em movimento. Ela sobe. O corpo inclina-se para frente, indicando esforço, mas também direção. Isso transforma a imagem numa metáfora de resistência cotidiana. Ela não apenas suporta o mundo: ela faz o mundo continuar funcionando.
Nesse sentido, o mural produz uma inversão radical das hierarquias tradicionais do trabalho. As atividades mais valorizadas economicamente raramente aparecem como sustentáculos da vida urbana. Já uma ocupação frequentemente marcada pela informalidade torna-se, literalmente, aquilo que impede o colapso ambiental das cidades.
Talvez seja essa a principal força da obra. Ela desloca nossa pergunta. Em vez de perguntar “quem limpa a cidade?”, Mundano pergunta “quem sustenta o mundo?” A resposta não aponta para empresários, governos ou tecnologias. Ela aponta para uma mulher anônima, descalça, subindo uma ladeira com o planeta nas costas.
Atlas e Sísifo encontram-se, então, na mesma figura. De Atlas vem o peso do mundo. De Sísifo, a repetição interminável do esforço. Mas Mundano acrescenta um terceiro elemento que os mitos gregos desconheciam: a dimensão política do trabalho invisível.
A catadora não carrega o mundo porque foi amaldiçoada pelos deuses. Ela o carrega porque a sociedade organizou a economia, o consumo e o descarte de tal forma que uma parcela de trabalhadores precisa assumir, diariamente, o custo humano daquilo que todos produzem e poucos enxergam. Por isso, o mural não é apenas uma homenagem às catadoras e aos catadores.
É uma crítica visual ao modo como distribuímos reconhecimento. Aqueles que tornam possível uma cidade mais limpa, mais sustentável e ambientalmente viável permanecem, muitas vezes, na condição paradoxal de gigantes invisíveis, sustentando um mundo que raramente lhes devolve o peso de sua própria importância.
Roberto Xavier é Cientista Político (FFLCH – USP) e Pesquisador em Política de Saúde e SUS, Mestre em Gestão de Políticas Públicas (EACH – USP) e Consultor em Impactos Socioambientais e dedica-se a estudar as tensões entre Estado, Democracia e desigualdades no Brasil contemporâneo. Colabora com o Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora (IEA/USP).
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