ARTIGO DE OPINIÃO (43): Longevidade, trabalho e desenvolvimento: o Brasil está preparado para a inversão demográfica? Uma transformação que exige uma nova agenda para o país. – Por Maurem Montes da Silveira

Durante grande parte do século 20, o país foi caracterizado por uma população predominantemente jovem e uma grande base de pessoas entrando continuamente no mercado de trabalho. Esse cenário está mudando. A Revisão de 2024 do IBGE, baseada nos resultados do Censo Demográfico de 2022, mostra a rápida transformação da estrutura etária do Brasil.

Ao mesmo tempo, de 2000 a 2023, a proporção de pessoas com 60 anos ou mais cresceu de 8,7% para 15,6% da população, a fertilidade caiu de acima do nível de reposição para abaixo da reposição populacional e a participação das gerações mais jovens diminui. A combinação de vidas mais longas e menos nascimentos no Brasil resulta em uma transformação demográfica marcante: até 2029, haverá mais pessoas com 60 anos ou mais do que crianças e adolescentes de 0 a 14 anos.

Essa inversão não é apenas uma mudança demográfica, mas também uma mudança estrutural que terá enormes implicações no mercado de trabalho, nos sistemas de saúde e previdência, nas políticas de saúde e na sustentabilidade econômica e social do país.

Menos jovens e mais longevidade: quem comporá a força de trabalho brasileira?

Obviamente, trabalhar em idades mais avançadas pode refletir realidades muito diferentes. Para alguns, significa escolha e propósito, participação social, realização profissional. Para outros, é necessidade econômica e a impossibilidade de deixar o mercado. Essa heterogeneidade deve ser levada em conta ao discutir a longevidade produtiva.

O objetivo de uma política de longevidade não deve ser apenas fazer as pessoas trabalharem por mais tempo. O objetivo deve ser que as pessoas que precisam ou querem permanecer economicamente ativas possam fazê-lo com saúde, dignidade, qualificação e capacidade de trabalho.

É justamente nesse ponto que a discussão sobre longevidade encontra a agenda contemporânea de Saúde e Segurança do Trabalho. Se objetivamos trabalhadores saudáveis e capazes aos 60 ou 65 anos, precisamos olhar para as condições às quais estão submetidos durante toda a sua trajetória profissional.

Essa talvez seja uma das principais conexões entre a Normas Regulamentadoras e a agenda da longevidade: Providencias não devem começar quando aparecem doenças, afastamentos ou incapacidades. Elas precisam acontecer antes.

E esse pensamento deverá ir “além das normas”, independentemente das multas e penalidades em vigor, entendendo que a maior penalidade é a responsabilidade de um trabalhador doente com tempo de trabalho e carreira interrompidos precocemente.

As organizações conhecem seus custos de saúde, mas quantas conhecem sua demografia do trabalho? Essa análise poderá se tornar tão estratégica quanto os indicadores tradicionais de turnover, absenteísmo e produtividade.

A necessidade de políticas públicas, torna-se emergente, nenhuma empresa, isoladamente, será capaz de responder à magnitude da transição demográfica brasileira. Será necessária uma agenda nacional de longevidade.

Essa deverá ligar as áreas que têm sido trabalhadas de forma fragmentada, desde saúde, trabalho, educação, previdência, assistência social, cuidado, desenvolvimento econômico, planejamento urbano entre outras.

Não há uma única longevidade, existe uma realidade algo que “atravessa” as imagens sociais do Brasil. Envelhecer após décadas de trabalho formal, alta educação, renda adequada e acesso a serviços de saúde é muito diferente de envelhecer após uma trajetória marcada pela informalidade, trabalho precarizado, baixa renda e exposição contínua a riscos ocupacionais.

Devemos falar sobre longevidades, no plural. Talvez essa seja uma das ideias centrais, para uma política de longevidade brasileira.

O questionamento principal, não deve ser: quanto custará uma população que envelhece?

Mas ter a perspectiva de: como estamos preparando hoje as condições de saúde, trabalho, educação e proteção social que permitirão sustentar uma sociedade longeva amanhã?

A inversão demográfica brasileira não é um assunto futuro. Ela já começou. E a forma como o Estado, as empresas e a sociedade respondem agora determinará se a longevidade é percebida principalmente como um aumento de custos e dependência ou se também pode representar saúde, conhecimento, participação, inovação e desenvolvimento para o Brasil.

 

Maurem Montes da Silveira – Membra Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora do Instituto Estudos Avançados da USP. Mestranda Faculdade Ciências Médicas Unicamp – Epidemiologia Saúde do Trabalhador.