As mudanças climáticas atingem a todos, mas suas consequências não são distribuídas igualmente. O relato de um motorista de aplicativo em São Paulo revela como a crise climática e a fragilização dos direitos trabalhistas podem se encontrar em uma mesma história.
Na tarde de 14 de outubro de 2026, uma forte chuva provocou o alagamento do túnel do Anhangabaú, na região central de São Paulo. Entre os motoristas surpreendidos pela rápida elevação da água estava Marco Antônio Peixoto, 38 anos, motorista de Uber, que concedeu uma entrevista à Folha de São Paulo, relatando os momentos de desespero vividos enquanto tentava escapar do veículo.
Marco Antônio transportava uma passageira quando a água começou a invadir o túnel. Ela conseguiu sair, mas ele enfrentou uma dificuldade adicional: estava de muletas, recuperando-se de uma fratura no fêmur. Com a porta do automóvel impedida de abrir, precisou escapar pela janela, enquanto os veículos começavam a flutuar.
Em seu depoimento, há uma frase que ultrapassa a dimensão da tragédia e expõe uma questão profundamente relacionada ao mundo do trabalho:
“Eu trabalho de Uber, né? O carro é meu trabalho, eu não sei o que vai acontecer agora.” Essa declaração merece atenção.
Marco Antônio não estava apenas tentando salvar a própria vida. Ele também estava diante da possibilidade de perder sua fonte de renda. E, talvez ainda mais significativo, estava trabalhando em uma condição de limitação física importante, em recuperação de uma fratura que comprometia sua mobilidade.
Não sabemos quais foram suas recomendações médicas, tampouco podemos afirmar que estivesse formalmente impedido de trabalhar. Mas sua condição suscita uma pergunta fundamental: quanto de liberdade existe na decisão de trabalhar quando interromper o trabalho pode significar perder a própria subsistência?
A chamada uberização do trabalho frequentemente se apresenta sob a narrativa da autonomia, da flexibilidade e do empreendedorismo individual. Entretanto, essa liberdade precisa ser analisada à luz das condições reais de proteção social.
O trabalhador pode escolher quando ligar o aplicativo, mas nem sempre pode escolher ficar doente. Pode organizar sua jornada, mas não controla integralmente sua remuneração, a demanda por serviços ou os critérios de funcionamento da plataforma.
Pode ser proprietário do veículo, mas frequentemente assume sozinho os custos de manutenção, os riscos de acidentes e as consequências financeiras de uma interrupção do trabalho.
Nesse contexto, a autonomia pode coexistir com uma profunda insegurança.
E é justamente nessa realidade que as mudanças climáticas encontram terreno fértil para ampliar desigualdades já existentes.
O aumento da frequência e da intensidade de determinados eventos climáticos extremos representa uma ameaça crescente à segurança e à saúde dos trabalhadores. Chuvas intensas, enchentes, ondas de calor e outros fenômenos afetam a mobilidade, a infraestrutura, a continuidade das atividades econômicas e a própria capacidade de trabalhar.
Entretanto, seus impactos não são iguais para todos.
Quem possui vínculos de trabalho protegidos, mecanismos de afastamento remunerado, cobertura previdenciária e maior estabilidade financeira tende a dispor de mais recursos para enfrentar situações inesperadas.
Já o trabalhador precarizado, especialmente aquele cuja renda depende diretamente da atividade diária, pode enfrentar uma combinação de riscos: exposição ambiental, insegurança econômica, desgaste emocional e ausência ou insuficiência de mecanismos efetivos de proteção.
A crise climática, portanto, não cria todas essas vulnerabilidades. Porém revela e intensifica as desigualdades que já estavam presentes nas relações de trabalho.
A Organização Internacional do Trabalho, em relatório publicado em 2024, reconhece que as mudanças climáticas representam uma ameaça crescente à segurança e à saúde ocupacional. O documento destaca a exposição dos trabalhadores ao calor excessivo, aos eventos meteorológicos extremos, à poluição atmosférica e a outros fatores ambientais, alertando para a necessidade de atualizar as políticas de prevenção e proteção.
É importante compreender a saúde do trabalhador em sua integralidade.
Saúde não significa apenas ausência de doença ou incapacidade física. Envolve também equilíbrio emocional, segurança financeira, condições adequadas de trabalho, possibilidade de recuperação, proteção social e perspectivas de futuro.
Quando um trabalhador precisa decidir entre respeitar seus limites físicos e garantir a renda necessária para sobreviver, estamos diante de uma questão que não pode ser tratada exclusivamente como escolha individual.
Estamos diante de um problema social, econômico e político.
O relato de Marco Antônio nos permite enxergar essa sobreposição de vulnerabilidades. Um homem em recuperação de uma fratura, trabalhando nas ruas de uma metrópole exposta a eventos climáticos extremos, que em poucos minutos se vê diante do risco de perder a vida e o instrumento do próprio sustento.
Não se trata de negar o valor do empreendedorismo, da inovação tecnológica ou das novas formas de organização do trabalho. Trata-se de reconhecer que a modernização das relações produtivas não pode significar o enfraquecimento das garantias fundamentais de quem trabalha.
Da mesma forma, a adaptação às mudanças climáticas precisa ultrapassar a discussão ambiental e incorporar a dimensão social e laboral.
Precisamos de políticas públicas de mobilidade e infraestrutura capazes de reduzir riscos, sistemas de alerta e prevenção mais eficientes, proteção previdenciária acessível, mecanismos de amparo diante da incapacidade temporária e formas de responsabilidade compartilhada na economia de plataformas.
Precisamos, sobretudo, compreender que a proteção à saúde do trabalhador deve alcançar também aqueles que estão fora dos modelos tradicionais de emprego.
Às vésperas de decisões eleitorais importantes, esse debate se torna ainda mais necessário.
É legítimo discutir crescimento econômico, inovação, produtividade e geração de renda. Mas é igualmente indispensável perguntar quais propostas efetivamente protegem as pessoas que sustentam essas atividades.
Que modelo de desenvolvimento desejamos construir? Um modelo no qual cada trabalhador assume individualmente todos os riscos de sua atividade? Ou um modelo em que a inovação esteja acompanhada de responsabilidade social, proteção à saúde e garantias de trabalho digno?
Essas perguntas precisam fazer parte do debate público, independentemente de preferências partidárias.
Porque as consequências das mudanças climáticas não serão enfrentadas apenas com obras de infraestrutura, assim como a precarização do trabalho não será resolvida apenas com discursos sobre autonomia.
Será necessário reconhecer que justiça climática, justiça social e trabalho digno são dimensões inseparáveis de um mesmo desafio.
Marco Antônio conseguiu escapar da água.
Mas sua história nos deixa uma pergunta que não deveria ser ignorada:
Quantos trabalhadores estão diariamente tentando sobreviver a outras formas de afogamento — financeiro, físico e emocional — sem que a sociedade perceba?
Talvez o maior desafio não seja apenas impedir que a água continue subindo.
É impedir que a vulnerabilidade dos trabalhadores continue se aprofundando.
Maurem Silveira – Membra Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora do Instituto Estudos Avançados da USP. Mestranda Faculdade Ciências Médicas Unicamp – Epidemiologia Saúde do Trabalhador.
Bibliografia:
- Organização Internacional do Trabalho (OIT, 2024). Ensuring Safety and Health at Work in a Changing Climate. Relatório internacional sobre os impactos das mudanças climáticas na segurança e saúde ocupacional. Consultar relatório.
- Margerison e colaboradores (2025). Platform-Mediated Gig Work and Health: A Scoping Review. American Journal of Industrial Medicine. Revisão de 45 estudos sobre trabalho em plataformas digitais e saúde física e mental. DOI: 10.1002/ajim.70007.
- IPCC (2022). Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability, capítulo 8. O relatório demonstra como pobreza e desigualdades sociais ampliam a vulnerabilidade aos impactos climáticos
- Folha de S.Paulo (14/10/2026). Reportagem de Leandro Machado e Zanone Fraissat: “Tive que sair pela janela”; motoristas relatam pânico em túnel alagado em SP.


