Eu, diferentemente de muita gente que conheço e admiro, há muito deixei de acreditar em Utopias e Revoluções e passei a acreditar fortemente na Política. Não na política dos acordos convenientes, das frases de efeito ou dos interesses particulares disfarçados de bem comum, mas na Política construída a partir de ideologias claras, de experiências históricas, do embate entre classes sociais, das conjunturas econômicas e, sobretudo, da disposição das pessoas de exercerem seu pensamento crítico e transformarem a realidade.
É por acreditar na Política que não consigo aceitar a neutralidade diante do que está em jogo neste segundo turno. Respeito quem se desencantou com os partidos, os governos e as instituições, quem se decepcionou com a esquerda ou quem já não encontra nas disputas eleitorais a esperança de mudança que um dia alimentou.
Mas compreender a decepção não significa aceitar a indiferença. Há momentos em que as diferenças políticas ultrapassam o campo das preferências e colocam em questão os próprios fundamentos da democracia, as liberdades individuais, os direitos sociais e a possibilidade de continuarmos divergindo sem que a divergência se transforme em ameaça.
É nesse contexto que me posiciono em apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva. Não por acreditar que a esquerda seja infalível, que seus governos estejam livres de contradições ou que suas escolhas não devam ser criticadas. A crítica é parte essencial da democracia, e nenhuma força política deve estar acima dela.
Apoiar Lula não significa renunciar ao pensamento crítico, passar um cheque em branco ou abandonar a autonomia intelectual. Significa reconhecer que, diante das alternativas colocadas neste segundo turno, há uma escolha política concreta a ser feita e que essa escolha terá consequências para o futuro do país.
A candidatura de Flávio Bolsonaro representa, para mim, a continuidade de um projeto político cuja relação com a democracia e com as instituições precisa ser examinada à luz dos acontecimentos recentes da história brasileira. Não se trata de transformar divergências ideológicas em acusações indiscriminadas, tampouco de presumir que todo eleitor de direita seja autoritário.
Trata-se de reconhecer que a democracia não se resume à realização periódica de eleições. Ela exige respeito aos resultados das urnas, aos limites constitucionais do poder, à independência das instituições, à liberdade de imprensa e à legitimidade da oposição. Quando esses princípios são relativizados, a ameaça não se restringe a um partido ou a um governo: alcança a própria sociedade e o direito de cada cidadão participar da vida pública.
Por isso, não considero exagero tratar com seriedade o risco de retrocessos democráticos, sociais e institucionais associado à continuidade do bolsonarismo. O Brasil conhece as consequências da ruptura democrática e sabe que direitos conquistados ao longo de décadas podem ser enfraquecidos quando a intolerância ocupa o lugar do diálogo e a força se sobrepõe às regras.
A democracia não está garantida para sempre. Ela depende de instituições sólidas, mas também da disposição dos cidadãos de defendê-la quando seus fundamentos são colocados em questão.
É justamente por isso que me incomoda a neutralidade política às vésperas de uma decisão dessa dimensão. Não confundo neutralidade com prudência, independência intelectual ou liberdade de crítica. Todas são legítimas e necessárias.
Questiono, sim, a ideia de que seja possível permanecer equidistante quando estão em disputa projetos com consequências distintas para as instituições democráticas, as políticas sociais, os direitos dos trabalhadores e as condições de vida da população.
A neutralidade pode parecer uma posição de equilíbrio, mas, em determinadas circunstâncias, acaba funcionando como uma forma de afastamento das responsabilidades que a própria vida em sociedade nos impõe.
Para mim, a isenção absoluta é uma utopia confortável. A partir dela, é possível criticar a direita e a esquerda, o Estado e a sociedade, os trabalhadores e os patrões, a opinião pública e a opinião publicada, sem assumir o compromisso de defender qualquer caminho concreto para transformar a realidade.
É possível identificar problemas em todos os lados e, ainda assim, evitar a pergunta fundamental: diante das alternativas existentes, qual posição estamos dispostos a sustentar e quais consequências estamos preparados para assumir?
Não ignoro as contradições da política brasileira, nem as limitações dos governos, os erros dos partidos ou as frustrações acumuladas por quem esperava mais. Sei que a candidatura de Lula não representa a realização de todos os meus ideais, assim como sei que votar em uma alternativa política não significa concordar integralmente com ela.
A democracia real não nos oferece escolhas perfeitas. Oferece alternativas historicamente determinadas, com possibilidades, limites e consequências que precisam ser avaliados. É nesse terreno concreto, e não no conforto de uma posição abstrata de pureza, que as decisões políticas são tomadas.
É por isso que não me basta afirmar que sou contra os dois lados, que todos são iguais ou que nenhuma candidatura me representa integralmente. A crítica que não distingue projetos, contextos e consequências corre o risco de transformar diferenças reais em uma equivalência conveniente.
E, quando tudo parece igualmente condenável, a omissão passa a se apresentar como superioridade moral. Não acredito nessa superioridade. Acredito na responsabilidade de reconhecer as diferenças, estabelecer prioridades e assumir as escolhas que considero necessárias, sem abrir mão da crítica e da vigilância.
Provavelmente serei criticado pelas ideias que defendo. Faz parte. Ideias políticas não são verdades eternas, muito menos construções acabadas. São interpretações da realidade, orientadas por valores, experiências e projetos de sociedade.
Precisam ser debatidas, confrontadas com os fatos e aperfeiçoadas à luz das transformações históricas e sociais. Mas não podem ser apenas confortáveis. Quando uma ideia evita o conflito, dispensa a responsabilidade e se recusa a produzir consequências, corre o risco de se tornar apenas uma declaração sem compromisso com o mundo que pretende explicar.
Neste segundo turno, portanto, sou contra o Bolsonarismo na mesma medida em sou contra a neutralidade. Defendo a candidatura de Lula porque considero necessário preservar e fortalecer a democracia, impedir retrocessos e manter abertas as possibilidades de avançarmos na construção de um país menos desigual, com mais direitos, oportunidades e justiça social. Essa posição não elimina minhas críticas, não encerra o debate e não me dispensa de cobrar coerência, responsabilidade e compromisso democrático.
Não espero que todos pensem como eu. Espero, porém, que reconheçam a dimensão histórica da escolha que temos diante de nós. A divergência política é legítima e indispensável. O que não podemos fazer é tratar como indiferente o destino das instituições que garantem nossa liberdade de divergir. Há momentos em que não escolher também produz consequências, ainda que prefiramos não reconhecê-las.
Para mim, a Política tem lado. Não porque eu considere o meu lado infalível, mas porque acredito que a transformação da realidade exige escolhas, compromissos e responsabilidades. E, quando a democracia está em questão, não aceito que a neutralidade seja confundida com virtude.
Neste segundo turno, meu lado é o da democracia, dos direitos sociais e da defesa das liberdades. Meu voto é em Lula. E assumo, sem constrangimento, a responsabilidade política por essa escolha.
Roberto Xavier é Cientista Político (FFLCH – USP) e Pesquisador em Política de Saúde e SUS, Mestre em Gestão de Políticas Públicas (EACH – USP) e Consultor em Impactos Socioambientais e dedica-se a estudar as tensões entre Estado, Democracia e desigualdades no Brasil contemporâneo. Colabora com o Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora (IEA/USP).
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