EDITORIAL (5): CONSTRUINDO OUTROS MUNDOS POSSÍVEIS: “Pra que amanhã não seja só um ontem com um novo nome” (Emicida) – Chamamento para o 1º Congresso do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora (IEA/USP)

Há momentos em que compreender o mundo já não basta. É preciso perguntar que mundo queremos construir.

Desde sua criação, o Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora (IEA/USP) tem se dedicado a acompanhar criticamente as profundas transformações do mundo do trabalho, tornando visíveis seus impactos sobre a vida, a saúde e a dignidade de quem trabalha. Temos procurado compreender a precarização, a informalidade, a plataformização, as novas tecnologias, as desigualdades, as violências, as formas contemporâneas de exploração e a progressiva dissolução das fronteiras entre tempo de trabalho e tempo de vida. Observar criticamente o presente, contudo, só adquire pleno sentido quando nos ajuda também a reconhecer, no interior desse mesmo presente, as possibilidades de outros futuros.

É com esse propósito que realizaremos, em novembro próximo, o 1º Congresso do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora (IEA/USP), durante dois dias de encontros (23 e 24), diálogos, reflexão e construção coletiva, sob o mote “Construindo outros mundos possíveis — Pra que amanhã não seja só um ontem com um novo nome”.

Este primeiro Congresso pretende realizar um movimento deliberado de abertura para o futuro. Sem abandonar a crítica às formas contemporâneas de exploração e subordinação do trabalho, queremos deslocar parte de nosso olhar da denúncia para o anúncio; do diagnóstico para a possibilidade; daquilo que precisa ser superado para aquilo que já começa a nascer.

Nosso horizonte inspirador será o Princípio Esperança, de Ernst Bloch. Para Bloch, a realidade não está acabada: ela contém possibilidades ainda não realizadas, aquilo que chamou de “ainda-não”. A esperança, nessa perspectiva, não é espera passiva, consolo ou simples otimismo. É capacidade de perceber, nas contradições do presente, possibilidades reais de transformação. É consciência antecipadora. É a disposição de reconhecer aquilo que ainda não existe plenamente, mas cujas condições de existência começam a ser construídas.

Daí a importância das utopias concretas. Não queremos falar de futuros imaginários desligados da realidade, mas conhecer experiências que já estão acontecendo; práticas que desafiam a naturalização do trabalho subordinado; formas cooperativas, solidárias, comunitárias e autogestionárias de produzir; experiências de economia solidária e popular; iniciativas que democratizam a tecnologia e o conhecimento; novas relações entre trabalho, território e natureza; experiências de redução do tempo de trabalho e ampliação do tempo de vida; formas de produzir e compartilhar riqueza que coloquem a vida, a dignidade humana, o cuidado, a solidariedade e a sustentabilidade acima da lógica exclusiva da acumulação.

Queremos procurar o futuro que já existe no presente.

E queremos fazê-lo especialmente em diálogo com as novas gerações.

Há jovens que ingressam no mundo do trabalho sem aceitar como inevitáveis as formas que herdaram. Questionam hierarquias, jornadas extenuantes, trabalhos sem sentido, destruição ambiental, desigualdades e a ideia de que a vida deva organizar-se integralmente em torno do trabalho subordinado. Ao mesmo tempo, criam redes, coletivos, cooperativas, tecnologias sociais, experiências culturais e novas formas de organização, produção e solidariedade. Não se trata de idealizar a juventude, mas de reconhecer sua extraordinária capacidade de interrogar aquilo que gerações anteriores aprenderam, muitas vezes, a considerar natural.

Por isso, este Congresso quer ouvir trabalhadores e trabalhadoras, jovens, movimentos sociais e populares, sindicatos, pesquisadores, estudantes, coletivos, povos e comunidades tradicionais, experiências territoriais, iniciativas de economia solidária, criadores de tecnologias e todos aqueles que estejam experimentando — mesmo que em pequena escala, mesmo que de maneira incompleta — outras formas de trabalhar, produzir, cooperar e viver.

Queremos promover o encontro entre o conhecimento acadêmico e os saberes produzidos na experiência social. Mais do que falar sobre alternativas, queremos falar com quem as está construindo. Mais do que apresentar modelos acabados, queremos colocar experiências em diálogo. Mais do que procurar uma única resposta, queremos reconhecer a pluralidade dos caminhos emancipatórios possíveis.

Talvez uma das tarefas mais importantes de um Observatório seja justamente esta: não apenas tornar visíveis as injustiças, os sofrimentos e as contradições produzidos pelo presente, mas também tornar visível aquilo que está nascendo.

Observar, portanto, não significa contemplar à distância. Significa identificar tendências, reconhecer emergências, conectar experiências, produzir conhecimento e contribuir para que possibilidades dispersas possam se encontrar, ganhar visibilidade, aprender umas com as outras e ampliar sua potência transformadora.

É nesse sentido que entendemos o caráter altermundista deste Congresso. A afirmação de que outros mundos são possíveis não significa apresentar uma fórmula única para o futuro. Significa recusar a ideia de que o mundo existente seja o único possível. Significa reconhecer que formas históricas de organização do trabalho podem — precisamente porque são históricas — ser transformadas.

Queremos perguntar juntos: Que mundo do trabalho queremos construir? Que experiências existentes anunciam relações mais livres, democráticas, solidárias e sustentáveis? Como emancipar progressivamente a vida da subordinação exclusiva às lógicas do mercado? Como colocar tecnologias e inteligência artificial a serviço de trabalhadores e trabalhadoras? Como produzir sem destruir a natureza e os territórios da vida? Como redistribuir riqueza, poder, conhecimento e tempo? Como recuperar o sentido social do trabalho e, ao mesmo tempo, afirmar o direito à vida para além do trabalho?

Estas perguntas não serão respondidas apenas em conferências ou mesas de especialistas. Queremos que atravessem os dois dias do Congresso e sejam enfrentadas por meio do encontro entre gerações, saberes, experiências e movimentos.

Nosso 1º Congresso será, portanto, menos um ponto de chegada do que um ponto de partida.

Um convite para imaginar, conhecer e conectar experiências emancipatórias. Um espaço para transformar esperança em reflexão, reflexão em encontro e encontro em possibilidades de ação. Um exercício coletivo de consciência antecipadora: olhar para aquilo que existe e, simultaneamente, aprender a enxergar aquilo que ainda-não-é, mas pode vir a ser.

Ao final, queremos assumir coletivamente um compromisso público com a construção desses outros mundos possíveis — socialmente justos, democráticos, saudáveis, solidários e ambientalmente sustentáveis — nos quais a economia esteja a serviço da vida, a tecnologia a serviço das pessoas e o trabalho deixe progressivamente de ser experiência de subordinação, sofrimento e alienação para tornar-se, quando necessário e desejado, atividade dotada de dignidade, sentido e autonomia.

O Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora nasceu para olhar criticamente o mundo do trabalho. Mas observar o presente também significa procurar nele as sementes do futuro.

É para encontrá-las, conhecê-las, colocá-las em diálogo e ajudar a cultivá-las que fazemos este chamamento.

Venham construir conosco outros mundos possíveis.

Para que possamos olhar para o futuro não apenas com esperança, mas com a convicção de que ele começa a ser construído aqui e agora.

Para que amanhã não seja só um ontem com um novo nome!

Prof. René Mendes – Coordenador Geral do Observatório