O Brasil aproxima-se de mais um momento decisivo de sua vida democrática. Em breve, milhões de brasileiras e brasileiros serão chamados às urnas para escolher representantes que terão responsabilidades fundamentais na definição dos rumos do país nos próximos anos.
O Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP), não é um partido político, não pertence a partido algum e não se propõe a indicar candidaturas ou orientar escolhas eleitorais. Sua autonomia crítica e intelectual é parte constitutiva de sua identidade.
O Observatório não tem partido. Mas tem lado.
Tem o lado da vida, da saúde e da dignidade de quem trabalha.
Tem princípios, valores e compromissos públicos. Tem uma razão de existir. E é precisamente por fidelidade a essa razão de existir que não pode ser indiferente aos diferentes projetos de sociedade que se apresentam ao país.
Neutralidade político-partidária não significa neutralidade ética. Autonomia não significa ausência de valores. Pluralidade não significa indiferença diante da desigualdade, da precarização, do sofrimento, da violência, da exploração do trabalho ou da destruição das condições que tornam a vida possível.
Desde sua criação, o Observatório assumiu como missão acompanhar criticamente as transformações do mundo do trabalho, revelar seus impactos sobre a vida, a saúde e a dignidade da classe trabalhadora e contribuir para a construção de alternativas emancipatórias. Somos um espaço plural e democrático, constituído no diálogo entre universidade, trabalhadores e trabalhadoras, movimentos sindicais, sociais e populares e diferentes campos do conhecimento.
É a partir desse lugar que olhamos também para as eleições.
As eleições passam. As escolhas de sociedade permanecem.
Uma eleição não trata apenas de pessoas, partidos ou mandatos. Nela também se confrontam concepções sobre desenvolvimento, democracia, direitos, proteção social, relações de trabalho, saúde, ambiente, desigualdade e futuro.
Por isso, mais do que perguntar simplesmente quem governará, interessa-nos perguntar: que sociedade queremos construir? Que lugar terão nela o trabalho, a vida e a dignidade humana?
Interessa-nos saber se as políticas públicas contribuirão para ampliar ou reduzir desigualdades; fortalecer ou fragilizar direitos; proteger ou desproteger quem trabalha; ampliar ou restringir o tempo disponível para viver; enfrentar ou aprofundar a precarização; preservar ou degradar os territórios e os ecossistemas dos quais depende a própria vida.
São essas perguntas — e não fidelidades partidárias — que orientam o olhar do Observatório.
Nossa referência fundamental é a centralidade da vida.
Defendemos o trabalho digno, protegido e seguro para todos e todas. Defendemos relações de trabalho compatíveis com a dignidade humana e com a proteção da saúde. Defendemos a redução da jornada de trabalho e formas mais justas de organização do tempo social. Defendemos o direito ao descanso, ao lazer, à convivência, ao cuidado, à cultura, à participação social — enfim, o direito à vida além do trabalho.
Não aceitamos como inevitáveis a precarização estrutural, a informalidade desprotegida, a terceirização predatória ou as novas formas de subordinação produzidas pela plataformização e pela gestão algorítmica do trabalho. As transformações tecnológicas, inclusive aquelas associadas à Inteligência Artificial, devem ser avaliadas não apenas por sua capacidade de produzir eficiência, produtividade ou riqueza, mas também — e sobretudo — por seus efeitos sobre quem trabalha e sobre a distribuição social dos benefícios que produzem.
Também nos preocupam as formas, antigas e novas, de adoecimento relacionado ao trabalho: o crescimento do sofrimento mental, as violências e os assédios, as longas jornadas, as escalas atípicas, o trabalho intermitente, a insegurança existencial, a desproteção previdenciária e a crescente dissolução das fronteiras entre o tempo de trabalho e o tempo de viver.
Não consideramos aceitável uma sociedade na qual trabalhar possa significar adoecer, sofrer ou morrer.
O mundo do trabalho não termina nos muros das empresas
Nosso compromisso com a classe trabalhadora exige igualmente compreender que trabalho, saúde, ambiente, moradia, mobilidade, renda, alimentação, território e relações sociais fazem parte de uma mesma trama da vida.
Por isso, observamos criticamente os efeitos das reestruturações produtivas e das estratégias econômicas sobre as cidades, o campo, as florestas e os territórios dos povos originários e das comunidades tradicionais.
Preocupam-nos a concentração da riqueza e da terra, as desigualdades sociais, raciais, de gênero e territoriais; o trabalho rural degradante e as formas contemporâneas de trabalho análogo à escravidão; os impactos dos agrotóxicos; o extrativismo predatório; a mineração e o desmatamento; a poluição; a crise hídrica; a perda da biodiversidade e as mudanças climáticas.
A questão ambiental é também uma questão do trabalho e da classe trabalhadora. Os efeitos da degradação ambiental não se distribuem igualmente pela sociedade. Há uma dimensão de justiça ambiental que não pode ser dissociada da justiça social.
Da mesma forma, acompanhamos políticas públicas, mudanças legislativas, decisões judiciais e transformações nos sistemas de proteção social. Direitos trabalhistas, previdenciários e sociais não são abstrações jurídicas: constituem formas históricas de proteção da vida diante das assimetrias de poder presentes nas relações de trabalho.
Nossa atenção volta-se particularmente para aqueles e aquelas que se encontram mais vulnerabilizados pelas transformações contemporâneas: trabalhadores informais, terceirizados, migrantes, trabalhadores de plataformas digitais e tantos outros que permanecem invisíveis às formas tradicionais de proteção social.
Não queremos apenas denunciar o presente. Queremos ajudar a construir o futuro.
O Observatório não nasceu apenas para registrar perdas, produzir diagnósticos ou acompanhar retrocessos.
Observar, para nós, significa também procurar aquilo que ainda está nascendo.
Significa identificar experiências de solidariedade, cooperação, organização coletiva, economia solidária, cooperativismo e autogestão. Significa acompanhar novas formas de organização sindical e de negociação coletiva. Significa conhecer experiências capazes de reorganizar o tempo social, democratizar as relações de trabalho e construir alternativas às formas alienadas, precarizadas e destrutivas de produzir e viver.
É nesse ponto que nosso compromisso encontra o Princípio Esperança, de Ernst Bloch.
A esperança a que nos referimos não é espera passiva, ingenuidade ou simples desejo de que as coisas melhorem. É a esperança vinculada à possibilidade histórica, ao ainda-não, àquilo que ainda não existe plenamente, mas cujas possibilidades podem ser reconhecidas no presente e construídas pela ação humana coletiva.
Por isso falamos em utopias concretas.
Não a utopia como fuga da realidade, mas como capacidade de enxergar, dentro da própria realidade, possibilidades de transformação. Experiências que já existem, mesmo que pequenas ou incompletas; movimentos que anunciam outros modos de trabalhar e viver; iniciativas que demonstram que aquilo que hoje parece inevitável pode ser transformado.
Somos movidos pela convicção de que outros mundos do trabalho são possíveis.
Nossos critérios são públicos
Diante das escolhas que o Brasil fará nas urnas, não indicaremos nomes. Não distribuiremos apoios partidários. Não diremos às pessoas em quem votar.
Mas reafirmamos publicamente os valores que orientam nossa atuação.
Queremos um Brasil em que a economia esteja a serviço da vida — e não a vida subordinada exclusivamente às exigências da economia.
Um Brasil em que o desenvolvimento seja socialmente justo e ambientalmente sustentável.
Um Brasil em que trabalhar não signifique renunciar à saúde, à família, ao descanso, ao cuidado, à cultura e ao direito de dispor do próprio tempo.
Um Brasil que reduza desigualdades e enfrente discriminações de classe, gênero, raça, etnia, geração e território.
Um Brasil que proteja quem trabalha, inclusive aqueles que as novas formas de contratação e organização produtiva procuram tornar invisíveis.
Um Brasil que reconheça a saúde, a proteção social e os direitos do trabalho como conquistas civilizatórias.
Um Brasil que enfrente a emergência climática e proteja seus territórios, suas águas, suas florestas, sua biodiversidade e os povos que historicamente os preservam.
Um Brasil que valorize a democracia, a participação social, o diálogo, a ciência e, ao mesmo tempo, reconheça a riqueza dos saberes populares, tradicionais e dos povos originários.
Um Brasil que tenha coragem de discutir a redução da jornada de trabalho, a reorganização social do tempo, a proteção social universal e o direito de cada pessoa a construir uma existência que não seja inteiramente consumida pelo trabalho.
Em síntese, um Brasil no qual o trabalho esteja a serviço da vida, e não a vida a serviço do trabalho.
Temos lado porque temos esperança
Em períodos eleitorais, costuma-se perguntar de que lado estamos.
Nossa resposta é simples.
Estamos do lado da vida.
Do lado da saúde.
Do lado da dignidade humana.
Do lado dos direitos sociais.
Do lado da democracia.
Do lado da justiça social e ambiental.
Do lado de quem vive do próprio trabalho.
E estamos, sobretudo, do lado da possibilidade de transformar aquilo que parece imutável.
Não temos partido. Temos princípios.
Não temos candidatos. Temos compromissos.
Não temos uma cartilha eleitoral. Temos valores públicos pelos quais examinamos criticamente políticas, propostas e projetos de sociedade.
E temos esperança.
Uma esperança que não se limita a desejar um país melhor, mas que nos convoca a construí-lo.
Porque o futuro não está pronto. O futuro é campo de disputa, criação e responsabilidade coletiva.
Às vésperas de mais uma eleição, reafirmamos, portanto, a razão de existir do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora: acompanhar criticamente o presente, tornar visível aquilo que permanece invisibilizado, antecipar tendências e contribuir para construir alternativas emancipatórias.
Que nossas escolhas coletivas sejam capazes de ampliar a vida, a saúde, a dignidade e os direitos de quem trabalha.
Que saibamos reconhecer, no presente, os sinais do mundo que ainda pode vir a ser.
E que a esperança — essa esperança concreta, ativa e transformadora de que nos fala Ernst Bloch — continue a nos mover.
Porque outro mundo do trabalho não é apenas necessário. É uma possibilidade histórica que cabe a nós construir.
Prof. René Mendes
Coordenador do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora
Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo – IEA/USP


