Publicado originalmente em “A Terra é Redonda” (2/4/2026). Republicado com autorização dos autores) FONTE: https://aterraeredonda.com.br/um-dialogo-sobre-economia-solidaria-parte-2/
O enfrentamento à tecnociência capitalista exige que as tecnologias sociais superem a lógica da competição e se firmem como sementes de uma organização produtiva coletiva e soberana
Este texto apresenta o restante dos nossos comentários ao artigo publicado em 27 de novembro passado no Portal Vermelho do PCdoB pelo companheiro Dayvid Souza Santos: “Economia Solidária: uma caminhada para além da utopia da escassez”.[i]
Ele segue o fio da meada adicionando elementos ao que foi tratado nas duas seções – Nossas concordâncias e Anotando discordâncias pontuais – do nosso artigo anterior.
Organizado em cinco seções – “Modelo chinês”, Uma discordância central, Sobre o empreendedorismo, sobre o risco de inviabilização do ator portador de futuro e Para continuar a conversa – este outro artigo deve ser lido posteriormente ao já publicado.
Consideramos que o esforço que estamos pedindo para quem nos lê seja bem recompensado. A informação que passarão a ter, ao se inteirarem do conteúdo da discussão em curso no âmbito dos pesquisadores, dos militantes e dos responsáveis em última instância pela elaboração da policy da economia solidária e da tecnologia social, será recompensado pela desenvoltura que terão para nela intervir.
Como estímulo para que aceitem essa nossa provocação, informamos que o relatado no início do artigo anterior sobre o Projeto de lei encaminhado pela deputada Jandira Feghali, segue ocupando um espaço importante na agenda da politics da economia solidária e da tecnologia social. Em 29 de março, o companheiro Dayvid Souza Santos publicou o artigo “Por um Brasil inovador e soberano: tecnologia a serviço do povo”[ii] em que retoma muitos dos argumentos que já discutimos.
O que, entre outras coisas, aumenta a importância de que o debate a que nos referimos no final do presente artigo, que nos parece essencial para orientar o projeto de país que temos que defender na conjuntura, seja urgentemente realizado.
“Modelo chinês”
Iniciamos enunciando algo que, propositalmente, raia à ingenuidade: o que o autor faz, ao tomar a experiência da China como referência normativa, parece subestimar algo essencial que pela sua orientação ideológica ele deve saber melhor que nós. Isto é, o fato de que este país carrega no lombo décadas de socialismo!!
A “socialização da grandeza” que o autor antepõe à “herança de um tempo de impotência política” derivada da obsessão com “o pequeno”, e o uso emancipador da “tecnologia de ponta” que permitiria um deslocamento importante ao debate sobre alternativas ao neoliberalismo nos faz lembrar autores que ajudam a temperar essa visão.
Entre eles estão alguns que lemos há muito tempo. Ivan Illich, por exemplo, destaca que tecnologias de grande escala tendem a gerar dependência, burocratização e perda de autonomia comunitária, o que contrasta com a diversidade territorial e a autogestão que marcam a economia solidária. E David Harvey, que reconhece os avanços sociais, mas aponta contradições produtivistas e formas de acumulação que limitam a democratização real do modelo chinês.
E, ainda, Celso Furtado, que considera que a experiência chinesa não pode ser projetada como modelo para a região dada heterogeneidade estrutural das economias latino-americanas que limita a formação de sistemas produtivos integrados e de uma base tecnológica própria. E nos lembra que a capacidade chinesa de coordenar inovação em larga escala é tributária de um processo histórico de industrialização contínua e acumulativa centralizada pelo Estado, enquanto na América Latina prevaleceram ciclos interrompidos, dependência tecnológica e fortes condicionantes externos.
Assim, embora a experiência chinesa ofereça elementos para reflexão sobre planejamento e política produtiva, projetá-la como modelo normativo para a periferia do capitalismo marcada por estruturas produtivas fragmentadas e subordinadas, envolve sérios riscos. A proposta de “popularizar as tecnologias de ponta e fazer da escala um instrumento de emancipação” não parece se adaptar aos contextos latino-americanos, que exigem combinações mais plurais de participação e apropriação do excedente gerado.
Pedindo desculpas por não entrar aqui nesta polêmica que tem atraído muitos pesquisadores no mundo inteiro, particularmente, alguns dos países periféricos latino-americanos com o Brasil, vamos encerrar este parênteses sugerindo a quem nos lê um artigo publicado neste momento em que estamos terminando de revisar este texto.[iii] Nele, baseado num alentado livro de um brasileiro (China: tradição e modernidade na governança do país), se dá a entender que a participação popular que o seu autor diz existir na China é essencial para promover a sinergia política, social, econômica e tecnocientífica que estaria possibilitando o “socialismo tecnológico chinês do século XXI” de que nos fala o companheiro Davyd Souza Santos.
Uma discordância central
Retomando o procedimento de comentar passagens do artigo sobre as quais nos parece necessário aprofundar a discussão, vamos apresentar uma discordância que crescentemente tem nos preocupado haja vista a pressão com que o empreendedorismo vem forçando sua entrada nas políticas públicas de economia solidária e tecnologia social.
Ela aparece quando o autor afirma, deixando transparecer uma escassa consideração à contribuição de pesquisadores do campo que:
“O movimento de economia solidária e de tecnologia social deve deixar de ser o abrigo ético dos despossuídos e tornar-se a base de uma nova política produtiva. Isso exige rearticular o papel do Estado, das universidades e das empresas públicas num projeto de inovação de massa. As ‘tecnologias sociais’ precisam ser integradas às cadeias de valor, à política industrial e à transição ecológica – não como remendo marginal, mas como vetor estratégico de desenvolvimento”.
Essa formulação carrega limitações importantes quando examinada à luz do debate crítico que há décadas vem ocorrendo entre nós. Ao propor que a economia solidária e as tecnologias sociais se integrem às cadeias de valor e à política industrial, seu texto reproduz justamente aquilo que temos identificado como o “erro de projeto” da política de economia solidária[iv]. Aquele que busca fazer com elas se orientem, de modo hoje subordinado à racionalidade mercantil e à lógica empresarial dominante, claramente associada ao ideário neoliberal e ao empreendedorismo.
A economia solidária, quando tratada como mecanismo de dinamização produtiva ou inserção competitiva, deixa de operar como espaço contra hegemônico e passa a incorporar valores – a competição, eficiência empresarial, orientação ao mercado – que se traduzem num modo de atuação que nega seus princípios – a autogestão e a propriedade coletiva dos meios de produção que a torna possível – e sua própria razão de existir.
Assim, a ideia de transformá-la em base de uma “nova política produtiva” corre o risco de aumentar sua contaminação pelo empreendedorismo amplamente difundido como política alternativa nos meios políticos que frequentamos e compartilhamos, esvaziando seu potencial societário e submetendo-a ao mesmo modelo que sustenta o capitalismo suicida que o autor critica.
Além disso, ao propor apenas uma rearticulação funcional entre Estado, universidades e empresas públicas para produzir “inovação de massa”, seu argumento não problematiza o fato de que elas têm sido capturadas pela hegemonia neoliberal e reproduzem modelos organizacionais baseados na competição e na heterogestão e têm atuado no sentido de reproduzi-lo ao “professorar” o que denominamos tecnociência capitalista.
Integrar tecnologias sociais às “cadeias de valor” sem questionar a natureza dessas cadeias, implica aceitar que a Economia Solidária opere como um complemento do sistema existente, e não como semente de uma alternativa pós-capitalista.
A economia solidária não deve pretender preencher as lacunas do capitalismo periférico, mas construir práticas de convivência, produção e consumo fundamentadas na solidariedade, na autogestão e na propriedade coletiva, incompatíveis com a lógica que orienta muitas das políticas públicas em curso.
Em vez de propor uma integração funcional da economia solidária mediante o emprego de tecnologias sociais, temos que preservar e fortalecer seu caráter utópico, contra hegemônico e voltado para a construção de um futuro “para além do capital” como aquele que postula a visão da esquerda que, contraditoriamente, o autor defende.
Ao invés de subordiná-la à política industrial existente, o que pretendemos é permitir que seus princípios orientem a concepção e implementação de um outro estilo de desenvolvimento. Rejeitando o primado da competição e fortalecendo a cooperação entre redes solidárias de produção, consumo e finança, o cuidado com a vida e a construção de futuros para além do capital, ele irá superar, na periferia latino-americana, a policrise suicida que o capitalismo engendrou e é incapaz de enfrentar.
Sobre o empreendedorismo
Embora reconheçamos a relevância dos diagnósticos presentes no artigo, entendemos que ele acaba por aceitar, ainda que talvez de forma não intencional, uma tendência problemática das políticas recentes de economia solidária: a aproximação com o empreendedorismo como matriz organizacional, fundamentado em seus desenvolvimentos tecnocientíficos recentes.
Em nossas pesquisas, temos argumentado sistematicamente que essa aproximação não é apenas insuficiente: ela reforça o “erro de projeto” da política de economia solidária. E, também daquelas políticas que com ela se relacionam a jusante, como a agrícola e industrial (para cuja reorientação ganha força na esquerda a proposta da reindustrialização solidária[v] que o autor seguramente conhece). E a montante, entre outras menos importantes, a relacionada à política de tecnologia social cuja elaboração está a cargo da estrutura regimental que o autor coordena no Ministério de Ciência Tecnologia e Inovação.
Buscando destacar o fato de que a aceitação da normativa do empreendedorismo que subjaz à proposta do autor, apontamos nosso acordo com pesquisadores que consideram o empreendedorismo como um dispositivo central do neoliberalismo para reorganizar a força de trabalho, intensificar a competição, difundir a ideologia meritocrática, e incorporar trabalhadores precarizados ao circuito de acumulação sem direitos.
Argumentamos que a tecnociência capitalista vem sendo crescentemente orientada para potencializar o empreendedorismo, transformando o trabalhador em empresa de si mesmo e reforçando a lógica da mercantilização total da vida.
Sustentam nossa posição autores latino-americanos que o autor seguramente conhece e entre os quais destacamos: José Luis Coraggio, que insiste que a subjetivação neoliberal ocorre “por dentro” das práticas sociais, deslocando trabalhadores de experiências coletivas (sindicatos, cooperativas, associações, redes solidárias) para trajetórias individualizadas e precárias; Paul Singer, que alerta que economia solidária não pode adotar a lógica da competição neoliberal sem perder seu fundamento emancipatório: a cooperação como princípio organizador da produção e da vida social; Luis Razeto, que diz que misturar lógicas (empreendedorismo, competição, métricas de mercado) pode deformar a prática solidária e torná-la apenas um simulacro de empresa.
A colonização da economia solidária pela lógica empresarial vem sendo destacada em trabalhos que evidenciam como a incorporação do empreendedorismo como “modelo de negócio” nas políticas de Economia Solidária tende a inviabilizar a construção das redes solidárias, pois desloca sua lógica para a competição, a eficiência gerencial e a busca de mercado
Quando políticas voltadas à solidariedade passam a exigir competição, métricas empresariais, eficiência gerencial, escalabilidade e lógica de mercado, o resultado é um processo que os autores do nosso campo chamam de contaminação do horizonte utópico, pois desloca os fundamentos da economia solidária – autogestão, vínculo comunitário, cooperação e a propriedade coletiva que os viabiliza – para valores que lhe são estruturalmente contraditórios.
Apenas para relembrar, ressaltamos que José Luis Coraggio descreve esse movimento como mercantilização por dentro; Luis Razeto o denomina “desvio empresarial”; Singer alerta para o risco de integração subordinada.
Sobre o risco de inviabilização do ator portador de futuro
Em nossas publicações, temos insistido que ao orientar as redes solidárias para competir no mercado pelo poder de compra de empresas e famílias, a política tende a inviabilizar o fortalecimento do ator portador de futuro da sociedade que queremos como intelectuais de esquerda, e como o autor, ajudar a construir.
Por isso, entendemos que não basta fortalecer a economia solidária; é preciso protegê-la das lógicas que a deformam, evitando seu rebaixamento a um mero arranjo tático de inclusão via mercado capitalista. E é por essa razão que reiteradamente temos assinalado a importância da alocação do poder de compra do Estado às redes solidárias.[vi]
Para nós, como defendemos reiteradamente, a economia solidária é: uma utopia em construção; um projeto societal; uma alternativa concreta à heterogestão, à competição e à propriedade privada; e não um modelo de negócio adaptado ao capitalismo tardio e especialmente orientado a subalternizar ainda mais países periféricos como o nosso que, como o autor destaca anseiam por soberania.
Para continuar a conversa
Agradecemos profundamente a oportunidade do diálogo com autor do artigo que aqui se comentou. Reafirmamos nosso interesse em prosseguir contribuindo por meio de artigos e seminários e, em particular, do debate que se aludiu no início deste texto aventado em conversa com o companheiro Dayvid Souza Santos.
Esperamos que o presente texto possa servir, junto com o seu artigo e outros materiais que julgue pertinentes, para a análise dos que dele venham a participar; em especial das companheiras e companheiros que como ele são responsáveis pela elaboração da política de economia solidária e tecnologia social.
Nossa tradição de esquerda demanda exatamente isso: debate rigoroso, respeito mútuo e compromisso com a herança intelectual que compartilhamos. Afinal, é para cumprir esse papel, mantendo um pé na academia e outro no território da pesquisa-participante, que temos empregado nosso tempo e nossa energia para produzir um conhecimento que sirva ao povo que paga o imposto que nos dá este privilégio.
Estamos certos de que podemos avançar muito, coletivamente, na consolidação da economia solidária e na construção de sua plataforma cognitiva de lançamento que lhe permita materializar sua força utópica e transformadora.
Renato Dagnino é professor titular no Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp. Autor, entre outros livros, de A indústria de defesa no governo Lula (Expressão Popular) [https://amzn.to/4gmxKTr]. Membro integrante do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora (IEA/USP).. Carolina Bagattolli é professora do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Rogério Bezerra da Silva, geógrafo, é doutor em política científica e tecnológica. Membro integrante do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora (IEA/USP). Marco Baleeiro Alves é químico e doutor em política científica e tecnológica. Atualmente é chefe de projeto do Ministério do Trabalho e Emprego. Henrique Tahan Novaes, economista, é professor da Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp-Marília. Autor, entre outros livros, de O fetiche da tecnologia: a experiência das fábricas recuperadas (Expressão Popular). Ednalva Felix das Neves é professora do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Observação: as matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores e autoras, e não necessariamente representam posicionamentos institucionais do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora e/ou do Instituto de Estudos Avançados da USP.
Para ler a primeira parte deste artigo clique em https://aterraeredonda.com.br/um-dialogo-sobre-economia-solidaria/ ou https://otct.org/artigo-de-opiniao-20-um-dialogo-sobre-economia-solidaria-1a-parte-por-renato-dagnino-rogerio-bezerra-da-silva-marco-baleeiro-alves-carolina-bagattolli-henrique-novaes-e-ed/
Notas
[i] Ver https://vermelho.org.br/2025/11/27/economia-solidaria-uma-caminhada-para-alem-da-utopia-da-escassez/.
[ii] Ver https://horadopovo.com.br/por-um-brasil-inovador-e-soberano-tecnologia-a-servico-do-povo/.
[iii] https://outraspalavras.net/sem-categoria/uma-viagem-historica-pela-china-socialista/.
[iv] Ver https://aterraeredonda.com.br/o-empreendedorismo-e-a-economia-solidaria/ e https://aterraeredonda.com.br/o-empreendedorismo-e-a-economia-solidaria-parte-2/
[v] Ver, por exemplo, https://jornalggn.com.br/noticia/a-nova-industria-brasil-e-a-reindustrializacao-solidaria-por-renato-dagnino/.
[vi] Além dos artigos apontados na nota de rodapé 2 do artigo anterior, sugerimos a consulta a este outro, https://otct.org/artigo-de-opiniao-17-uma-contribuicao-dos-trabalhadores-autogestionarios-para-um-projeto-de-pais-por-renato-dagnino-e-marco-baleeiro-alves/, recém-publicado e que apareceu numa versão resumida em https://outraspalavras.net/alemdamercadoria/redes-solidarias-para-um-projeto-de-pais/.


