Regras frouxas, ampla desregulamentação das atividades econômicas, império global da financeirização, trabalho aviltado, esporádico e muito… Muito precarizado.
Mais… Desproteção, desarranjo e descuido para com esse mesmo trabalho; soerguimento de uma cultura enviesada de certo “empreendedorismo”, pejotização, terceirização, quarteirização e ampla e avantajada devastação da cultura das lutas e representações sindicais.
Nesse contexto, como esperado, como pragas, como ervas daninhas que se levantam do chão, surgem forças políticas e que todos julgávamos mortas e enterradas. Ledo engano…
O fascismo de triste memória se levanta firme e vigoroso como ideologia política nesse primeiro quarto de século; no seu geral, com as mesmas e mesmíssimas pautas e que lhe deram forma e movimento na Itália da década de 1920 ou na Alemanha dos anos trinta; nesse paralelo, ainda segue rezando e pregando por uma pureza nacionalista sem qualquer noção ou cabimento, contra a ampliação das liberdades individuais e clamando, urrando por certo passado de galardão e glórias do nosso triste nacionalismo e que só existiu, de fato, no juízo perverso, confuso e negacionista dos próprios fascistas ou neofascistas.
Esse combo, esse amontoado de adversidades, torna nossa conjuntura um campo movediço e minado de desafios e empecilhos essenciais para a efetiva realização dos direitos mais básicos e basilares disso e que chamamos de cidadania.
Nesse cenário e como esperado, direitos sociais não são reconhecidos; sutilmente, passa a vigorar uma muito estranha e curiosa percepção de que direitos são, digamos assim, privilégios e essa sensação, por seu turno, vira cotidiano, cultura e afeto.
Desse modo, os direitos mais elementares dos mais pobres são solenemente ignorados e, aliás, ao fim e ao cabo, essa gente veio mesmo para o mundo apenas e apenas, para ser servida e disponibilizada como mão-de-obra barata ou muito barata; dessa forma, é um tipo distinto de, digamos assim, neo-escravismo ou “escravismo soft” já legitimado e normalizado.
Ora… O trabalho no Brasil, já sabemos, é uma aberração, uma ignomínia, um insulto escancarado. Essa larga discrepância não se afirma apenas e somente por suas risíveis e infames determinações salariais; o drama dos trabalhadores ultrapassa e muito, essa trágica condição.
O profundo, corriqueiro e já banalizado dessa lógica é um cotidiano de insultos, acintes e humilhações desde a hora em que o infeliz do trabalhador se levanta… Desde quando se assenta em sua mesa e vê e percebe um café-da-manhã pobre e insuficiente. Persiste no seu transporte, em ônibus lotados, em ruas e avenidas congestionadas; prossegue no estrito ambiente de trabalho, nas provocações, insultos e formas abertas ou sutis de assédio e submissão.
A lástima da trágica condição de milhões de trabalhadores brasileiros está em bairros desestruturados, no covil de bandidos e traficantes e que plenamente livres e liberados rondeiam sua casa e sua vida; está na violência policial de cada dia e que em cínico “nome da lei” açoita com brutalidade pretoriana um trabalhador porque o incauto se excedeu no pileque do final de semana ou; que, diante das câmeras, explode o peito de uma mãe-de-família sem qualquer constrangimento, dúvida ou hesitação, afinal a mulher ousadamente afirmou: “vocês tem que respeitar a gente!”.
O pior, o mais arrasador do trabalho está no maçante, no repetitivo, no automatismo, em sua burocracia que microscopia o riso, a gargalhada ou o tempo que o trabalhador utilizou no banheiro; está ainda, no monocromático que adoece, entedia e deprime; nas intermináveis oito horas dedicadas e diárias de trabalho e que possui a extraordinária valência de não lhe mostrar qualquer tipo de horizonte, expectativa de futuro ou qualquer – QUALQUER – motivo para gostar do que faz.
Está em uma escala de trabalho “6×1” e que, não por menos, se equipara aos ciclos e fluxos de trabalho dados e postos no exato ano da graça de 1888, quando da abolição do escravismo brasileiro.
Pois bem, quem não sabe? A repetição adoece, rotinas apenam, o cotidiano frio, duro e engessado gera surtos, impaciência, mal-estar individual e coletivo.
Não… Não é só a desgraça salarial e que carcome nossas vidas… É o salário e suas circunstâncias nesse país assumidamente escravista.
Desse cenário, nossa única alternativa está na rebelião, como bem nos ensina o geógrafo Milton Santos, do “andar de baixo”. Está no levante dos escravizados… A alternativa possível está na rebelião dos desgraçados, condenados e surrados ou… Sejamos sinceros… Esse caos de dimensões globais será resolvido por processos eleitorais viciados, cretinos e farsescos?
Estou seguro que NÃO!
Angelo Cavalcante – Economista, cientista político e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara Analista do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora (Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo – IEA/USP).
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