ARTIGO DE OPINIÃO (23): O novo homem – Por Angelo Cavalcante

“Abomináveis na grandeza
Os reis da mina e da fornalha
Edificaram a riqueza
Sobre o suor de quem trabalha
Todo o produto de quem sua
A corja rica o recolheu
Querendo que ela o restitua
O povo quer só o que é seu.”
(A Internacional)

O fim da escala 6×1 é, digamos assim, uma determinante reengenharia social e que, mais do que qualquer outra pauta, interessa objetiva e diretamente aos trabalhadores brasileiros.

A profundidade e radicalidade desse tema é de tal ordem de importância e grandeza que uma jornada de 40h irá mudar, transformar integralmente – INTEGRALMENTE – o próprio curso e processo de desenvolvimento do homem/mulher brasileiro/brasileira.

Sim… Esse tempo de ócio, de bom ócio, irá fluir, singrar para o corpo desses indivíduos. Isso mesmo… Esse tempo livre irá rebater na forma, na silhueta, nas dimensões, características e na própria composição desses corpos, no seu padrão de integração e coesão e nos seus níveis de adoecimento, envelhecimento e atividade.

É como se um novo “homo sapiens” estivesse ressurgindo no meio do lamaçal, do lodo capitalista moderno, é como se uma nova omnidade estivesse despontando do barro, do caco e das cinzas porque, ao fim, um oxigênio novo, limpo e renovado adentrou nas narinas desses sujeitos do trabalho e para o trabalho.

Estou tratando, reparem bem, de mecanismos e de dispositivos de evolução.

Um dia, um único dia livre, desobrigado e desincompatibilizado das engrenagens e amarras desse cotidiano duro, exigente e apurado, refaz e retraduz todo o SER do humano envolto e subsumido no trabalho alienado, gerador de mais alienação e de muito embrutecimento… Tanto embrutecimento, mas tanto que, vejam só, grande parte dos trabalhadores a serem, quem sabe, beneficiados por uma escala 5×2 seguem apáticos, distantes e completamente indiferentes a esse debate.

É como se estivéssemos tratando de nada!

Bom… Não por menos, é que o disciplinamento da “6×1” atingiu um “topos” de controle, predominância e exigência que a própria subjetividade de trabalhadores e trabalhadoras fora capturada, refeita, redefinida e afirmada como dimensão in-animada, como aspecto caótico, apartado, distinto do próprio humano.

Pois sim, nos faz recordar das predicas da igreja no Brasil, ali por entre os séculos XVI e XVII segundo a qual os indígenas do período não possuíam “alma”, logo, para os critérios de antanho, eram “coisa”, eram seres in-cultos, insensíveis, daí podiam ser escravizados, seviciados, violentados ou mortos porque eram “res” ou tipos coisificados e não-humanos. Aliás, sequer o direito a dor possuíam.

É a mesmíssima lógica… Em certa medida, o continuum da atual jornada de trabalho e que, de maneira insuspeita, remonta os umbrais de 13 de maio de 1888, ano do fim da escravaria brasileira, sobretudo, a partir do imenso salto técnico e tecnológico a envolver as atividades profissionais e produtivas, é antes, bem antes, um re -disciplinamento dos trabalhadores e que, ousados e impetuosos, estão a exigir redução dos seus fatigantes e penitentes tempos de trabalho.

Os patrões e proprietários dos meios de produção sabem, conta por conta, na ponta do lápis e a partir de planilhas muito bem feitas e precisas de que não há mais qualquer sentido nas 48h semanais. Insistem e insistem nessa tese colonial porque seguem acreditando na domesticação, no controle e, de novo, em mais disciplinamento do trabalho, mas também, no controle de suas rotinas, dos seus movimentos, das suas escolhas e das suas formas de lazer, prazer e de ação política.

Ao fim, seis dias ininterruptos e incessantes de labor nem é pelo trabalho em si… Ora, ora… É que impede, amarra, bloqueia e empata sublevações, conspirações, greves e o bem pior: distribuição de renda.

É uma pedagogia… Uma pedagogia contra o ócio. Aliás, ócio é VIDA!

Um viva aos trabalhadores do Brasil e do mundo!

 

Angelo Cavalcante – Economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara. Analista do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora (Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo – IEA/USP).

Observação: as matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores e autoras, e não necessariamente representam posicionamentos institucionais do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora e/ou do Instituto de Estudos Avançados da USP.