Em 1951 o Brasil era bem… Mas bem diferente do que é hoje.
Nesse período, nossa população, grosso modo, vivia no campo. Nossa industrialização realizava, engrenava seus primeiros e propedêuticos ensaios, apenas começava.
Nossas cidades eram bem diferentes do que são hoje e o mundo ainda respirava, inalava as ácidas e ensanguentadas cinzas da II Guerra Mundial.
Em 1951, o Brasil buscava, entre quedas e tropeços, seu rumo, quem sabe um horizonte possível e que lhe permitisse vicejar algum futuro comum, possível e sustentável. Até a essa altura reformas estruturais e absolutamente necessárias, aliás, ainda profundamente necessárias para os dias de hoje, como a reforma agrária, a reforma urbana ou a reforma tributária sequer eram, de fato, ventiladas e os índices sociais e econômicos do país estavam dentre os piores e mais degenerados do mundo.
Em 1951, éramos, de verdade, um país de analfabetos, de desdentados, de uma gente pessimamente alimentada, sem moradia, sem acesso a água potável, sem esgotamento sanitário ou qualquer lampejo de saneamento básico.
Áreas importantes como o norte do país eram devastadas, por exemplo, pela hanseníase, pela varíola ou malária. O centro-oeste era tomado, conflagrado pelo barbeiro e pelas imensas chagas e que causava nos corações dos cerradeiros além da solitária e fartamente presente nas carnes animais e em um sempre, tratadas e acondicionadas de maneira repulsiva.
Nesta altura, o Nordeste, o sempre misterioso nordeste, segundo a fina análise de Celso Furtado, era “a região mais pobre do Ocidente”. Nesse quadro, um leviatã diarreico invisível, perverso e fatal eliminava impiedosamente crianças nordestinas de sorte que os sobreviventes e resistentes até, pelo menos, a tenra altura de cinco anos eram, de fato, absolutamente raros.
A esse respeito vale relembrar, rememorar o épico poema “A bomba suja” (1975) de Ferreira Gullar (1930 – 2016) e que, não por menos, denuncia, conta desse imenso drama nordestino.
Diz Gullar:
Introduzo na poesia
A palavra diarreia.
Não pela palavra fria
Mas pelo que ela semeia.
Quem fala em flor não diz tudo. Quem me fala em dor diz demais. O poeta se torna mudo sem as palavras reais.
No dicionário a palavra
é mera ideia abstrata.
Mais que palavra, diarreia
é arma que fere e mata.
Que mata mais do que faca, mais que bala de fuzil, homem, mulher e criança no interior do Brasil.
Em 1951, prestemos atenção…
…Sequer éramos um Estado de direito; as liberdades individuais e de organização eram miúdas, escassas, arriscadas e por incrível que pareça, a força política mais moderna, avançada e articulada nesse contexto era representada justamente pelo Partido Comunista do Brasil (PCB), o mesmo “Partidão” e que, óbvio, tinha sua situação jurídica e partidária submetida a breves instantes de legalidade e extensos e intermináveis períodos de ilegalidade e de muita, muita perseguição e clandestinidade.
Em 1951, o assalariamento ainda não estava, de fato, consolidado e o trabalho seguia, é claro, desprotegido, aviltado e vilipendiado, sobretudo, para o essencial da população e composta por negros, mestiços e pauperizados de toda sorte.
Como esperado, a economia brasileira era das mais atrasadas e retardatárias da América Latina e, com algum esforço e boa vontade, estávamos equiparados ou equivalentes, quem sabe, a nações insulares como Honduras, Belize ou República Dominicana.
Não tínhamos efetivas rodovias, um básico sistema de comunicação, não havia energia elétrica em setenta por cento do território nacional e uma viagem por terra, saindo, por exemplo, de Salvador em direção a capital do país, à época o Rio de Janeiro, era uma jornada e que podia durar de vinte e cinco a trinta dias.
Pois bem… Isso é uma síntese bem panorâmica do Brasil dos anos de 1950.
Em que pese a inegável importância da Revolução de 1930, o PODER , ainda assim, não havia sido refeito, reformulado, democratizado e de norte a sul, o poder político, expressão institucional e governamental do poder econômico de oligarquias e autocracias regionais, determinava o próprio padrão de coesão e integração desigual, dispare e assimétrica e que sempre determinou a organização política brasileira.
E é justamente desse bastante adverso quadro social, político e econômico que, em 13 de agosto de 1951, o presidente trabalhista, Getúlio Vargas cria, dá forma para a Lei no. 1.411 e que, por fim, reconhece a profissão de ECONOMISTA em nosso país.
Fora instante epifânico, singular e destacadamente importante na própria definição dos rumos e que a economia brasileira, a partir desse gesto, irá assumir.
Mas quem era o economista? O que fazia? Como atuava? Quais seus objetivos e finalidades profissionais?
Bom… Primeiro é preciso compreender que esse cientista social, nessa sua origem nacional, se apresentava de maneira bem distinta do seu equivalente dos tempos atuais.
O desafio do planejamento, por exemplo, era imenso porque não dispúnhamos desse instrumental teórico, tampouco de uma efetiva base pública e acessível de dados e que permitisse analisar, verificar as imensas e abissais contradições e que determinavam nosso país. Sem contar que o ato de planejar, segundo a estupidez liberal de antanho, era mesmo “coisa de comunista”, de “bolchevique”.
O economista desse período era espécie de, digamos assim, um cego e que tateava possibilidades de intervenção a fim de gerar alguma forma de viabilidade ou crescimento Brasil afora.
Ora…
Que fazer com a tragédia da seca no nordeste e que, sempre impiedosa e em mortífera parceria com os latifúndios locais, expulsava suas populações para todos os confins do país?
Que fazer com os nordestinos, esses e que, segundo o compositor Paulo Vanzolini (1924 – 2013), eram, contraditoriamente, os tipos nacionais mais integrados às suas paisagens e paragens correlatas?
E digam… Que fazer com o largo e imenso oeste brasileiro, essa área continental, central e ausente de civilização? Não fossem os indígenas, seria uma completa nulidade territorial e eivada de hiatos, lacunas e vazios.
Que fazer?
O que pensaram os economistas sobre a Amazônia brasileira ou 60% do território nacional? Que fazer com seus indígenas, ribeirinhos, coletores, pescadores e extrativistas?
Que fazer, como proceder com suas matas, suas selvas, sua potência ambiental?
E o sul/sudeste, o dito “sul maravilha”? Seguirá como histórico catalisador, como concentrador crônico de investimentos e, óbvio, de gentes, conferindo, por conseguinte, das mais medonhas e degradantes experiências urbanas do planeta? Destaque, por claro, para o “boom” enviesado e pernicioso de metrópoles importantes como São Paulo e Rio de Janeiro.
O Brasil, sobretudo, o Brasil e não casualmente, por suas características e dimensões se afirmava como grande e grave desafio epistêmico, histórico e cognitivo para os economistas do país.
Curiosamente serão os mesmos economistas, mas não só os economistas, e que lançarão as bases analíticas para uma própria refeitura econômica do país a partir, principalmente, do experimento interpretativo da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL) onde figuras como Raul Prebisch (1901 – 1986), Osvaldo Sunkel (1929), Celso Furtado (1920 – 2004), dentre outras e outros, irão dispor de sofisticadas formas interpretativas visando o próprio “start” dessa busca épica disso e que passou-se a tratar por desenvolvimento.
A tese cepalina era, em si, um conjunto racional, coerente e argumentativo e que se opunha abertamente ao pensamento ricardiano e assentado na divisão internacional do trabalho onde, para nós, a periferia do mundo, restava ingressar nessa mesmíssima divisão apenas e apenas como meros fornecedores de insumos e matérias-primas agrícolas.
Foi de Prebisch a constatação científica de que nas trocas internacionais, países feito o Brasil e especializados em commodities tendiam a um crônico e permanente processo de desvalorização de seus itens se comparados com produtos industrializados. Estava criada, dessa forma, a excelente categoria da “deterioração dos termos de troca”.
Em imediata seguida, o paraibano Celso Furtado dá firma para o impactante Formação Econômica do Brasil (1958) onde o autor, a partir de critérios históricos e dedutivos, analisa com profundidade a estrutura econômica brasileira e suas tendências, quase sempre perversas.
Será, por fim, a partir do governo de Juscelino Kubitschek (1956 – 1961) que o economista irá, de fato, adentrar firmemente e com todas as suas capacidades nas esferas de gestão estatal.
Em Kubitschek, a expertise do planejamento, da análise de riscos e possibilidades, o estabelecimento de metas, prioridades e projeções são, enfim, integralmente assumidos e a gestão pública adquire por fim, níveis e patamares únicos de produção, suficiência e assertividade.
Desse modo e em todos os governos seguintes, a presença do economista será, de fato, determinante e incisiva e isso inclui o longo e duro período militar pela qual atravessou todo o país.
Finalmente, para nossa contemporaneidade, a profissão do economista se encontra em um dos seus instantes mais desafiadores considerando a extensa onda neoliberal e que privatiza e mercantiliza o Estado e seus serviços mais essenciais.
Nesse cenário, é importante considerar a crise sistêmica pela qual atravessa todo o mundo e isso envolve, reparem bem, crise climática, ambiental, desempregos e novas modalidades de precarização do trabalho, fim do Estado-nação e do próprio sentido de soberania, dentre outras instabilidades e correspondentes.
É por essas e outras que a atividade profissional do economista se afirma como uma das mais importantes e necessárias para os nossos confusos e penosos tempos.
Um SALVE!
Angelo Cavalcante – Economista, cientista político e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara Analista do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora (Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo – IEA/USP).


